terça-feira, 26 de março de 2024

Vamos falar de puerpério de tristeza



Eu engravidei pela segunda vez em 2020, e eu soube que eu estava grávida, no dia que as orientações sobre a pandemia começaram a chegar, com a vontade louca de comer bolacha de maisena torradinha com café com leite. Naquele dia, eu soube. 

Naquele dia, eu me alegrei. Foi doce a percepção de que realmente tinha um bebêzinho crescendo dentro de mim, um bebê sonhado e desejado, planejado para aquela época mesmo, quando a Olívia estava com quase cinco.

Claro, hoje, 4 anos depois, ninguém imaginaria o que se desdobraria com a pandemia da covid-19. O lockdown, as máscaras, não poder abraçar, gestante ser grupo de risco, as mortes, os amigos que perderíamos, a demora para a chegada das vacinas, o governo negacionista.

O medo de contrair a doença me acompanhou durante toda a gestação, e eu vim carregando uma tristeza que acredito que era geral, por estarmos vivendo tudo que vivemos, sem poder fazer nada. Misturada a essa tristeza, tinha a alegria de estar gestando pela segunda vez minha segunda menininha.

Planejar o parto dos meus sonhos, curativo, libertador, que para mim seria uma ressignificação do meu próprio nascimento, em meio ao caos das folhas de ponto que tive que lançar da minha casa, com a lombar doendo, e a Olívia trancafiada querendo atenção, foi bem mais estressante do que eu imaginei. Me entristecia que tinha que ser assim.

Mas a magia da vida em sua alquimia sempre faz com que as coisas sejam como tem que ser, e eu poder estar em casa para ficar com a Olívia devido as escolas trancadas, foi uma grata coincidência. Não pegar covid quando eu estava grávida, também.

Apesar de tudo, eu consegui ter o meu parto domiciliar tão desejado, e isso foi a maior benção de todas que já recebi na vida. O quanto sou grata a Deus por isso, é inexorável o bastante para caber em palavras. O quanto sou grata a sabedoria do feminino, que permitiu que mulheres gestassem e parissem de forma natural, é inexplicável.

Porém, aprendi que mesmo quando quando estamos vivendo o momento mais grandioso das nossas vidas, experimentamos emoções diversas, porque somos humanas, e diversas, e intensas, e experimentei pels primeira vez que no mesmo instante cabem felicidade e tristeza, e uma emoção não anula a outra.

Foi nesse contexto, que a Memê chegou numa manhã de terça-feira, às 11:44. E mesmo estando feliz demais, me sentindo privilegiada por tudo que vivenciei com essa chegada, a tristeza que eu sentia continuava a me fazer companhia em todos os momentos.



Assim que eu descobri também, que a mesma lágrima de tristeza pode coexistir com a de alegria, e foi muito confuso esse turbilhão de sensações. Muito intenso. 

Eu não deveria estar triste, eu dizia isso para mim mesma, mas depois de viver vários mergulhos de autoconhecimento, eu sabia que essa tristeza pedia passagem, e por isso que eu me permiti sentí-la, em toda sua intensidade e verdade.

Foram mais de dois anos após o parto, me sentindo triste, exatamente o tempo do meu puerpério, andando num ritmo lento, com o pensamento divagando, o olhar parado no horizonte, e a vontade de me encolher bem pequenininha pra caber dentro de uma casca de noz. Vontade de me recolher, de ficar quietinha, de rezar, de chorar (chorei muito nesse tempo todo).

Eu não entendia aquele sentimento, mas eu acolhia. Eu dizia para as amigas mais íntimas, que eu ainda não estava entendendo o porquê ou o pra quê daquela tristeza, mas que ela não cessava. Que era do puerpério.

Chamei a minha tristeza pra conversar muitas vezes. Tomamos vários cafés juntas, e algumas taças de vinho. Tinha dias que ela apertava o meu peito com tanta força, que doía cada pedaço do meu corpo, mas a dor era uma dor não só física, doía na alma. 



Não tinha nada a ver com nada nem ninguém, mas eu não queria nada e nem ninguém muito perto de mim. Eu queria ficar sozinha. E quando apertava demais, eu tinha muita vontade de fumar. Era louco como o aperto no peito saía com o cigarro, também era algo oral que me afetava.

No meu íntimo, eu implorava pra Deus, que me ajudasse a sair daquele estado. Que levasse embora a tristeza. Eu sentia que estava num deserto, árido, isolado, em câmera lenta. 

Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que eu precisava passar por aquele deserto, que ninguém passaria por mim, que naquele deserto tinha tesouros escondidos, e que eu devia seguir em frente. Em frente. Enfrente. Eu tinha que enfrentar o que estava acontecendo comigo, as sucessivas ocasiões que me colocavam diante de problemas para resolver, e a todo momento eu só queria que tudo parasse. 

Mas a gente não escolhe quando termina nosso deserto. Ele nos escolhe, e nos mantém nele até que estejamos fortes o suficiente para sair de lá. A gente olha em frente, e não tem nada palpável, mas o deserto é sábio, e nos faz sair dele muito melhores do que entramos.

O deserto da alma é solitário. Nada que do que te digam te tira de lá. É incrível a potência com que ele nos arrebata, nos sacode, nos subjuga, nos fere, nos derruba e nos levanta.

Foi assim que eu, enfim, ENTENDI!

Depois de tomar paulada da vida, de ter todos os ossos do corpo sacudidos, que eu entendi.

Se eu não cuidasse de mim, ninguém ía. Se eu não me valorizasse, ninguém ía. Se eu não me amasse, ninguém ía fazer isso por mim.

Aí um dia, assistindo um documentário sobre a vida do Paulo Gustavo, meu comediante favorito, que foi mais uma vítima da pandemia, Deus falou comigo. 

A Monica Martelli falava dele, e ela disse uma coisa, que me tocou profundamente: ela disse o quanto ele amava a vida, o quanto ele amava viver.

Ali, naquele momento, passou um filme na minha cabeça - eu nunca tinha amado a minha vida, eu nem sabia o que era isso! Sim, eu nunca tinha amado estar viva, eu nunca tinha pensado sobre isso. E, naquele momento, Deus me mostrou, através da história de vida de um homem que eu admiro profundamente, que é o Paulo Gustavo, que a minha virada de chave seria acolher minha tristeza, mas que eu só a transcenderia quando eu resolvesse amar a minha vida, quando eu decidisse ser feliz.

Nesse dia, começou o processo de mudança, a saída do deserto, e sobretudo, o entendimento do porquê tanta tristeza.

Toda aquele tristeza, queria despertar em mim a indignação diante da infelicidade. Ela me levou até o limite de mim mesma, me venceu pelo cansaço, e quando eu fiquei indignada o suficiente, eu saí dela. 

Meus olhos estavam atentos, e os ouvidos afinados, e eu entendi o quê toda essa triteza queria me ensinar. Claro, que era sobre felicidade, e eu fui tao burra que demorei mais de dois anos pra entender. Mas o fato é que o tempo no deserto é cronometrado de forma diferente, e parecia que ele tinha parado ali. Eu tinha a sensação de andar, sem sair do lugar. E isso eu também entendo hoje que era mais uma característica do meu puerpério. 

Dois anos. A vida toda da minha Memê. Que veio sacudindo todas as minhas certezas, chegou no momento mais difícil da história, pra me mostrar que dá pra ser feliz, que eu mereço ser feliz, que a vida é uma dádiva, e que eu posso amar a minha vida, que eu devo amar a minha vida. Que a vida foi feita para ser amada. 

Foi graças a tudo que passei desde quando descobri que estava grávida dela, graças a tudo que uma gestação, um parto, um puerpério de muita tristeza, que eu olhei, com olhos simples e singelos, para a felicidade que é minha por direito, mas que nunca reinvindiquei.

Filhos são oportunidades da vida de nos dar mais vida. Puerpérios são trechos difíceis de atravessar, mas que trazem algo extraordinário, se estivermos atentas. E, pra finalizar, faço menção à letra de uma música que me foi minha amiga durante todo meu puerpério, "De cada vez", da Sandy e da Agnes:


"Lembrar de uma tristeza, 

te faz saber o quanto é lindo ser feliz!"



 

sexta-feira, 22 de março de 2024

Para minha caçulinha Meme

 Meu amorzinho, minha bebêzinha linda,



Escrevo do alto dos seus 2 anos e 9 meses, após uma noite mal dormida porque te levei na yoga comigo e não deu certo, você quis colo (você não estava errada por querer isso), e eu queria fazer yoga (eu também não estava errada por querer isso). 

Enfim, minha princesa, você tem tido várias dessas crises ultimamente, que fazem parte da sua idade, esse período em que você está indo em direção ao mundo, descobrindo suas emoções e as suas vontades, e não sabe lidar com as emoções e as frustrações. Você deita no chão, e chora, chora, chora.

Nós dizemos mais de uma vez o quanto é difícil lidar com criança pequena, o quanto sua idade é complicada, é difícil, e, para partir nosso coração ainda mais, você já comentou comigo isso, já reproduziu nossa fala, dizendo que criança pequena é díficil, que você é difícil.

Filha, essa fase pode até estar sendo difícil, suas crises de choro doem em nós, porque nos lembra da criança que fomos, dos nossos choros silenciados, das vezes em que não pudemos expressar nossos incômodos e frustrações, e acaba sendo difícil pra nós te acolher como você precisa.

Meu amorzinho, sinto muito! Sinto muito por dizer para os outros que está sendo difícil cuidar de você. Sinto muito se no auge das suas crises, estamos na maioria das vezes, cansados, e não conseguimos ser o porto seguro que você precisa.

Sabe, meu amor, você não é nada difícil, você torna nossas vidas melhores, pode até ser difícil lidar com os choros, mas isso não é nada se comparado ao tamanho das bençãos que você trás para nossas vidas!

Eu quero que você entenda, que ser pais pode ser um tanto quanto difícil, porque educar uma criança exige, custa muito, pois para educar temos que nos auto-educar, e isso é sobre os pais e não sobre as atitudes da criança em si.

Mas você não tem culpa se nem sempre conseguimos nos autoeducar para ser os pais que você precisa, não são seus choros que nos fazem ter raiva e nos desesperar, mas talvez seja nossa própria vontade de chorar, que nós, adultos, aprendemos a reprimir.

Você é só um bebê deixando de ser bebê, e isso é muito para você entender e administrar no seu cérebro precoce. Ter que crescer pode ser bem dolorido, e sei que nem sempre consigo te deixar crescer. A mamãe sentirá falta das suas palavrinhas pronunciadas de forma errada e fofa, sentirá falta de ser alimento para você, e nem sempre consigo lidar com isso.

Eu também estou aprendendo a ser a mãe que você precisa, sei que desde sua gestação eu posso ter estado meio estresssada, você me disse isso e desenhou você dentro da minha barriga com a Olívia do lado, e me disse que eu estava estressada. Isso aconteceu depois que fiz com você a terapia do sono, e te contei que a mamãe estava passando por muitas coisas, mas te liberava das minhas emoções, pois elas eram só minhas, e você não precisava cuidar disso pois eu como adulta estava buscando formas de lidar.

Na sua sabedoria, no outro dia você acorda e me dá esse desenho, que pasme, eu fiquei arrepiada. Você trouxe como uma resposta até mesmo para suas crises e ansiedade de separação, que esses sentimentos vêm do fato da mamãe ter estado "estressada" durante sua gestação. Ah, meu amor!, é com lágrimas que eu escrevo o quanto sinto muito!

Realmente, aconteceram tantas coisas estressantes na minha gestação, coisas das quais, pelo jeito, tanto você quanto eu, ainda não nos esquecemos.

A vida pode ser tão louca e tão contraditória ao mesmo tempo, porque eu fiz de tudo para ter você num parto respeitoso, humanizado, amoroso, o que conseguimos e me enche de alegria. Mas a gestação deixou marcas em nós, em você, minha pequena.  



Mas isso passou, graças a Deus, você não tem culpa de nada, nós superamos tanto quanto pudemos todas as decepções, raivas, medos, e solidão que experimentamos (que eu experimentei e você foi testemunha ativa). E seguiremos superando, meu amor! Seguiremos em frente vivendo um dia por vez, um choro por vez, uma noite por vez, dissolvendo uma mágoa por vez. Juntas! Juntinhas sempre seguiremos, respirando bastante, sendo uma para a outra companhia gentil e amorosa.

A mamãe sempre estará aqui por você, sendo a mulher humana e possível que posso ser. 

Não tenha medo de crescer, a vida possui desafios diários, mas com amor e paciência, e com a força de Deus nos auxiliando, tudo vai passando... tudo passará! Eu amo ser sua mãe, obrigada por me escolher como mãe.












sexta-feira, 23 de junho de 2023

Para minha primogênita amada Olívia


Minha amada filha


Quando eu partir, 

sei que você vai sofrer muito

Que minha ausência será um buraco sem fundo

Que você vai querer morrer junto comigo

Pensar em desfazer da sua própria vida


Quando eu partir,

Sei que você não verá mais sentido nas coisas

Que você vai querer desistir de tudo

Sei que vai doer tanto, mas tanto

Sei que vai ser uma dor insuportável


Quando eu partir,

Sei que você vai desejar que o mundo acabe

Sei que você vai chorar lágrimas de sangue

Que você se sentirá tão, mas tão sozinha

Que vai parecer que só existe você no mundo


Quando eu partir,

Sei que você vai sentir que um pedaço seu se foi

Que o seu coração se partiu em mil pedaços 

Que cada pedaço seu, se perdeu em mim

Que sua alma foi arrebatada junto com minha ida


Quando eu partir,

Sei que você vai ficar se perguntando muitas coisas

Se você me amou o suficiente,

Se você demonstrou amor suficiente

Se você foi uma boa filha ou não

Se você honrou a mim em você


Quando eu partir,

Sei que será um dos momentos mais difíceis da sua vida

Sei que você será tomada de sentimentos ruins

Que o tempo ficará nublado por dentro por dias a fio

Talvez você não conseguirá levantar da cama 

Talvez você achará que nunca mais vai conseguir sorrir




Ah, minha filha, quando eu partir!!!!

Pode ter certeza que eu irei sem querer ir

Pois me separar de você vai doer demais

Mas sabendo que minha hora chegou

Eu me conformarei e irei de cabeça erguida

Eu tentarei olhar pra tudo que vivi, e então agradecer


Quando eu partir,

O seu rosto e da sua irmã me acompanharão

Olharei neles mais uma vez, e sorrirei

Pois terei no meu coração a maior certeza de todas

De que apenas por vocês existirem por meio de mim

Minha vida e minha morte valeu cada segundo


Quando eu partir,

Eu serei grata por ter sido o canal que te trouxe pra vida

Por ter renascido através do seu nascimento

Por ter aprendido tanto, mas tanto através de você

Sobretudo por ter re-aprendido a amar

E também a me amar.


Quando eu partir,

Um filme lindo vai passar na minha cabeça

Terei flashs de cada momento que mudou minha vida

Lembrarei do quanto renasci pra minha vida 

quando você nasceu

O mundo ficou novo, depois do dia que você chegou

Você nasceu de mim, e eu renasci de você

E desse renascimento, eu tive uma vida tão feliz


Quando eu partir,

Lembrarei dos seus cachinhos que eu arrumava com tanto amor

Do seu cheiro, da sua voz, do seu abraço

Me lembrarei do quanto eu amava olhar dentro dos seus olhos

Cantar pra você dormir, dormir abraçadinha com você


Quando eu partir,

Sei que será muito doloroso,

Que o luto te acompanhará por muito tempo

E isso é normal, minha menina

Não sei te dizer quando a dor passará

Ou se ela chagará a passar

Isso será muito pessoal, muito seu


Mas, quando eu partir,

Não sei se tenho o direito de te pedir algo

Mas saiba que eu gostaria que você seguisse em frente

Que você não deixe de amar a vida, como você sempre amou

Que você não desista de você

Que você encontre novamente motivos para sorrir


Quando eu partir,

Que você olhe pro céu e se lembre que estou lá

Que você me veja dançando pra lua quando olhar pra ela

Como você fez comigo muitas vezes quando era criança

Que você me veja no pôr-do-sol

Nas árvores, nas flores, na natureza


Quando eu partir,

Pense que eu sou bem pequenininha 

E que você está me colocando no seu coração

Pois tenha certeza que nele permanecerei

Te amando e apoiando em todas as suas decisões


Quando eu partir,

Nunca se esqueça que você não está sozinha

Que você é suficiente, desejada, e sempre foi amada

Que você é capaz, que você importa, você é especial

Que você é amor, é luz, e também sombra

Que não existe sombra sem luz

Por isso nunca se esqueça da beleza que há na imperfeição


Quando eu partir,

Não tenha medo de chorar,

Não tema a solidão

Não pense que é o meu fim

Eu não morro, eu entro pra vida

Que basta olhar pra você, pra me ver

Porque você é minha melhor versão

E estarei com você eternamente!


Quando eu partir,

Creia, não é o fim

É apenas um até logo

Chore o quanto precisar, coloque pra fora

Como sempre te ensinei

Mas não deixe de ter fé de que um dia iremos nos re-encontrar

Não perca a fé no meu amor por você

Ele é eterno, meu amor!!!

Quando eu partir,

Se puder, fique bem

Se não puder, peça ajuda, se una a quem te ama

Te prometo, que vai passar

Te prometo, que vai amenizar

Te prometo que não te abandonarei jamais!

Minha menina estrela

Sorria! Seu sorriso sempre me iluminou!


Quando eu partir... só continue! 

Continue filha! Continue....

Quero que você seja feliz!

Faça algo bonito da sua vida

Se esforce pra encontrar alegria nas pequenas coisas

E ser feliz, mesmo quando estiver triste

Não desista da sua paz interior

Não desista de você!!


Te prometo que vai ficar tudo bem 


(...) 

Ps: deixo as reticências pra você preencher.




(Texto escrito pra você, depois que você me disse que quando eu morresse, você se mataria).




quinta-feira, 1 de junho de 2023

Puerpério e a falência de si

 Definindo o puerpério 

Créditos da imagem: @o_trocatintas


Antes de ser mãe ou durante a gestação da minha primeira filha, nunca tinha ouvido falar nessa palavra difícil de falar chamada puerpério. Recorri ao dicionário para ver qual a definição que ele trás: “período que decorre desde o parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem às condições anteriores à gestação.”

A definição encontrada remete ao puerpério físico, aquele dos quarenta dias de pós parto, culturalmente chamado de “dieta”. Realmente, esse é o tempo necessário para o corpo da mulher ir se recuperando do parto, para os órgãos voltarem ao lugar, desinchar a barriga, recuperação da força física e poder voltar à atividade sexual.

Pouco se fala de puerpério físico, pouco se fala da “dieta”, eu nunca havia ouvido falar das tantas transformações que nosso corpo sofre depois de ter um filho, apesar de imaginar. Porém o imaginário idealizado é muito superficial, é só a ponta do iceberg. Se pouco fala-se de puerpério físico, que dirá do emocional, que pode durar até 3 anos ou mais, abordagem que ouvi pela primeira vez através da Laura Gutman.


Puerpério e as “nossas águas”

Quando o bebê nasce, é como se a mulher fosse inundada por “suas águas”, suas emoções. Faço a analogia com o líquido amniótico, que envolve o bebê na placenta durante seus nove meses de gestação, e que se derrama quando a bolsa é rompida. A permanência do bebê nessa água é muito simbólica para mim, pois nas águas do nosso corpo encontram-se registradas nossas emoções, astrologicamente nossas águas são as próprias emoções.

Ao mesmo tempo em que o bebê as toma para si, são elas que igualmente o protegem. Dessa forma, não há água ruim, ou emoções ruins, mas apenas emoções que o bebê passa a compartilhar com a mãe.

Quando há o derramamento dessas águas, ocorre a inundação. Uma vez inundada, a mulher tem a opção de sair da água e correr para bem longe dela, ou ela tem a opção de mergulhar nessas águas e desvendar seus mistérios. Descobrir seus tesouros.

Nossas águas são as emoções vividas durante toda nossa vida, representam nosso arcabouço emocional. Engloba aquelas emoções e sensações registradas desde nossa mais tenra infância. Quando ainda éramos apenas um embrião no ventre materno já registrávamos o entorno familiar e as emoções da nossa mãe.


O mergulho é uma escolha

O corpo humano é composto por 70% de água, então como não olhar para as nossas águas? As águas do nosso corpo representam também nosso sangue, e nosso sangue representa nossa família, nossos laços consanguíneos, nossas relações familiares, amorosas, de amizades. Nestes termos, como não associar puerpério com mergulho?! 

Pois bem. Puerpurar é se inundar, é olhar ao redor e só ver águas, em forma das mais variadas e contraditórias emoções, em forma de leite materno que jorra dos peitos empedrados, em forma de sangue que brota de mamilos fissurados, em forma de lágrimas, do bebê que chora de cólica, da mãe que chora por sentir tanta coisa e não entender quase nada.

As águas são inevitáveis, mas o mergulho é opcional. Escolher sair desse tanque de água, ou desse mar de emoções, é a decisão mais fácil de se tomar, e às vezes é a única atitude que damos conta de bancar. Reprimir tudo aquilo que vêm, escolher não sentir, escolher não olhar, não investigar o que há nos recônditos mais profundos dessas águas. Fora d’água é mais seguro e confortável. Escolher subir até a superfície, e nela permanecer. De fato, estar na superfície é mais seguro, e nos dá uma sensação de controlar os riscos, de controlar a vida. Mas nos priva do mistério, do desconhecido, das surpresas, dos tesouros escondidos que pode haver se escolhemos nos aprofundarmos, nos arriscarmos, se escolhemos nos abrir para receber a verdade. 


A solidão que há no mergulho

De fato, estar imerso nas profundezas das nossas emoções, da nossa psique, pode ser bem solitário. Esse é um lugar que ninguém pode ocupar por nós, e nem nos fazer companhia. A solidão que há nesse processo pode doer, e muito. Sangrar pelos poros.

Mas sabe aquelas situações da nossa vida que ninguém pode passar por nós? O puerpério é uma delas… Ele é tão único, particular e personalizado de acordo com toda nossa vivência emocional, quanto é difícil.

Porém, até hoje, não vivi nada mais transformador em toda minha vida, não experimentei solidão que me fizesse me apropriar tanto de quem sou de verdade como a solidão do puerpério. A solidão que ali reside, nos coloca contra a parede de nós mesmos, nos faz olhar de forma escancarada para o que somos, sem filtros. Ali vemos o quanto há a ser mudado, todos nossos defeitos e vergonhas que escondemos até de nós mesmos. Todas as máscaras caem, e só sobra o ser humano, cheio de limitações e medos.

Acho que essa solidão é necessária, para enxergarmos nossa humanidade, pois não tem como ser uma mãe possível sem olhar pra própria humanidade. E até nisso, o puerpério é belo.


Emergindo das profundezas


A verdade é a maior fonte de cura, é bíblico, “conhecerás a verdade, e ela vos libertará”! Por pior que seja o que encontramos ao mergulhar nas águas mais profundas de quem somos, durante nosso processo de puerpério, por mais dolorida que seja, a verdade liberta, a verdade cura, puramente e simplesmente assim.

Quando eu falo em tesouros, na maioria das vezes, os tesouros que encontramos ao mergulhar são em forma de curas, de transformação de vida, evolução como pessoa, crescimento emocional e espiritual.

Por isso que ao emergir do mergulho, emergimos mais íntegras, mais autênticas, mais humildes, mais conscientes das nossas contradições, dos nossos apegos. Ao nos darmos conta de que não controlamos nada, nos deparamos com nossa insignificância diante da vida, e percebemos que para nós só resta confiar. 

Confiar em Deus, confiar nos propósitos maiores da vida, confiar em nossa capacidade de ser o que somos ou em nossa incapacidade de fazermos diferente do que podemos, confiar nos nossos instintos, confiar nos nossos filhos. 

Esse também considero um presente do puerpério, a capacidade de confiar, ou o resgate da nossa capacidade de confiar, o que nos torna mais espiritualizados, mais próximos do divino. Nos proporciona a volta pra casa, como o filho pródigo.

Após emergir mais fortes, inteiras e mais conscientes, ainda que cheia de cicatrizes, nos damos conta do quanto o mergulho valeu a pena, do quanto nossas cicatrizes são tatuagens do nosso poder de superação, da nossa capacidade de se reinventar como mulheres e como mães, o reflexo da resiliência materna.


Quarentena e o encontro com nós mesmos

 

A perda do controle

A quarentena e toda a complexidade que estamos vivendo no mundo devido à pandemia, chegou inesperadamente e tirou o chão de todos.

Eu que há dois anos optei por não ver os noticiários por absorver demais as notícias ruins, só tive dimensão do que estava acontecendo quando a escola da minha filha suspendeu as aulas.

Meu marido e eu trabalhamos juntos e nosso horário era cronometrado com o da escola da nossa filha, tínhamos tudo sob controle. Não ter escola pra ela, para nós podermos trabalhar normalmente, foi o primeiro gatilho pra mim.

Fiquei aflita e dividida entre o desejo de cuidar dela de perto num momento como esse, ao mesmo tempo em que me afastei do trabalho, cheia de preocupações pois desempenho uma função de confiança e meu trabalho não teve opção de ficar em home office.

Naturalmente, não ter o controle sobre os acontecimentos me deixou angustiada, com a mente agitada, pensando em mil possibilidades negativas diferentes. Como em geral são os pensamentos que geram as emoções, consequentemente meu campo emocional sofreu um grande impacto, trazendo à tona as mais diversas emoções negativas, como o medo, insegurança, tristeza. Quando todo planejamento se torna ilusório, nossa mente fica perdida e isso reflete nas nossas emoções.

O ciclo do pensamento negativo

Percebo que na minha vida o medo é a emoção mais predominante, e sempre que ele vem sinto-o em meu corpo todo, ele começa no meu plexo solar, que é a região da barriga e estômago, traz uma onda de mal estar físico generalizado e uma angústia se instala em meu peito.

Quanto mais angustiada eu fico mais pensamentos negativos eu produzo, e quanto mais pensamentos negativos mais angústia. Esse é o ciclo do medo no meu corpo.

Essas sensações que experimento em meu corpo dizem algo sobre mim, esse contexto inesperado que traz esse medo, me faz reviver sensações físicas e emocionais que eu já vivi antes, possivelmente na infância, e de certa forma elas vêm para serem olhadas e integradas. Se ignoro a mensagem que há por trás desse medo, por exemplo, perco uma grande oportunidade de me conhecer melhor, de saber sobre o que sinto, de conhecer meu corpo e quem sou de verdade além dessas sensações. Perco uma grande oportunidade de cura através do autoconhecimento.

Mas sinto que no momento em que estou com meu corpo nesse colapso nervoso, primeiramente preciso sair desse estado, distraindo minha mente, trocando esses pensamentos por pensamentos mais positivos, movimentando meu corpo, mudando minha mente do lugar ilusório do passado ou futuro, e trazendo para o presente.

Tenho me sentido assim por diversas vezes durante essa quarentena, precisando lidar com minha mente o tempo todo, e por muitos momentos quando me dou conta já perdi o controle dela e meu corpo está paralisado no estado que descrevi acima. Às vezes, melhora rápido, às vezes fica um dia todo ou até mais em meu corpo… como tenho dito: dias bons, dias ruins. Ainda bem que nós, mães, pais, estamos acostumados com essa realidade na maternagem, de certa forma nos ajuda a lidar.

Medo do futuro e da morte

Quando nossa mente está preocupada com o que há de vir, está atuando no futuro, fora do presente, que é o único momento que realmente existe. Porém, estamos tão treinados a viver no futuro que pelo automatismo do nosso inconsciente não conseguimos sair de lá tão facilmente quando nos deparamos com algo que tira nosso controle e planejamento, e que desperta pensamentos e emoções negativas em nós, como é o caso do momento que estamos vivendo.

Desde cedo nos ensinaram que temos que pensar no nosso futuro, em ser “alguém na vida”, e não trago isso de forma negativa. Só quero chamar a atenção para as convenções que nos ensinaram desde sempre a focar no futuro, que colocamos nossa felicidade nele, nossa realização, nossa paz. Porém, só temos o presente, e num momento como esse podemos olhar pra isso com mais consciência e rever alguns conceitos. Estou tentando fazer isso.

Mas creio que o medo do futuro seja inevitável, e por mais que tentemos evitar, os pensamentos fatalistas estão vindo. As crises emocionais estão vindo. O medo de morrer, de perder alguém que amamos, nossos filhos, nossos pais… Sabemos que muitos já perderam e estão sofrendo seu luto nesse momento, estão lidando com a morte e seus mistérios.

Eu tenho lidado com o medo da morte diariamente, me questionado por que vim pra esse mundo, o que estou fazendo aqui, qual o propósito disso tudo, por que dói tanto perder um ente amado ou somente pensar nessa possibilidade, por que a morte é esse grande enigma e nos assombra tanto. E tudo que eu sei é que não tenho nenhuma resposta exata pra nenhuma dessas perguntas.

Formas de manter a paz em meio a todas as incertezas

Como eu disse acima, não existe resposta exata para a maioria dessas perguntas existenciais, não existe fórmula mágica para lidar com nossa mente, nem com nossas emoções.

Entendo que o medo do futuro e da morte são reflexo da falta de confiança, de fé no que vem depois. Quando penso que a natureza é farta e sábia e não deixará faltar o necessário para que eu sobreviva, eu fico em paz. Quando penso que mesmo depois que eu morrer, eu continuarei vivendo, eu fico em paz. Quando penso que antes de ser minha, a minha filha é filha de Deus, e eu fui apenas um canal pra que ela estivesse aqui, eu fico em paz. Quando penso que se minha filha morrer antes de mim, isso já estava acordado entre nós antes de virmos pra cá, eu fico em paz. Quando penso que não há separação, pois somos todos parte de um Todo, e de certa forma sempre estaremos juntos, eu fico em paz. Quando penso que existe uma Inteligência cuidando de tudo que não podemos entender, eu fico em paz. Quando penso que essa mesma Inteligência, que pra mim é Deus, está comigo, eu fico em paz.

A dor muitas vezes é inevitável, mas se tivermos paz pra lidar com ela, tenho certeza que será mais leve. Por isso que em minhas orações eu não peço pra entender, eu peço para ter paz para aceitar aquilo que não posso entender, e assim eu sigo.

A forma que eu encontrei de ficar bem foi estruturando essas crenças na minha mente, e confiando no mistério da vida. Funciona em boa parte do tempo, nas outras estou vivendo os emaranhamentos da falta de confiança, que geram os estados que citei, afinal sou humana e a vida não é uma linha reta.

Se posso te dizer algo é que encontre as crenças que te tragam paz, assim como eu encontrei as minhas. Na hora do colapso nervoso, o que me traz para o presente é pedir um abraço apertado pro marido ou pra filha, rezar e chorar no chuveiro, meditar, respirar, respirar, respirar, rezar antes de dormir, alongar, mudar o pensamento, encontrar um lugar interno de paz, um lugar que amo estar e pra onde posso ir quando eu quiser e precisar. Brincar com minha filha com conexão, fazer uma comida gostosa com atenção plena, comer algo que gosto, organizar a casa com atenção plena, colocar uma música que eu amo e sei a letra e cantar junto bem alto, dançar. Esses dias tirei da prateleira um CD da Ana Carolina e cantei todas as músicas a plenos pulmões… eu tinha me esquecido de como amava fazer isso, e me fez tão bem! Me tirou de um estado deprimido que estava fazia dias.

Nessa quarentena, assim como na vida, encontre aquilo que te nutre, te faz bem, te ajude a voltar para o aqui agora, te ajude a ter confiança na vida e no que vem depois, te enche de paz mesmo quando fora tudo é guerra. Eu também estou nessa busca com você, e sei que isso se estenderá enquanto respirarmos, pois isso é a vida!


(Texto postado originalmente em 2020)


Relacionamento do casal antes e após a maternidade

 

O antes

Quando tive minha filha eu já estava junto com meu companheiro há cerca de 12 anos, ele foi meu primeiro namorado, chegamos a ficar um período separados, e depois retomamos o relacionamento que perdura até agora, quase 15 anos.

Sempre tivemos um relacionamento respeitoso, compartilhamos alguns hobbies e paixões em comum como pela literatura, história, música, escrever. Quando fomos morar juntos, curtimos bastante a vida do nosso modo, gostávamos de estar entre casais amigos, e o que realmente nos definia era nosso amor a “nosso cantinho”, nossa solidão, lendo, cozinhando, vendo filmes, séries, vivendo no nosso mundinho particular. Que saudade desse tempo!

De certa forma, mesmo tendo coisas em comum, cada um também tinha seus próprios hobbies e manias, ele sempre dedicou seu tempo livre a sua revista, site e música, e eu aproveitava meu tempo vago pra cuidar da minha aparência física, pra ler livros e minhas revistas de moda e decoração, eu amava ficar vendo a nova tendência ou cor da moda.

Assim era nossa vida, nada nos abalava, vivíamos na “nossa bolha”, curtíamos nossa privacidade, nossa solidão por opção, éramos jovens pouco ambiciosos, muito acomodados na zona de conforto de um relacionamento tranquilo.

Como eram os sentimentos na relação

Na minha opinião, sempre existe entre o casal aquele que se interessa primeiro, e aquele que se deixa interessar. O que se interessa sempre vai “amar mais” que o outro. No nosso caso, foi meu companheiro que se interessou, e eu acabei gostando da forma como ele me tratava, me agradava, me elogiava mesmo quando estava desarrumada, me enchia de presentes.

Não foi paixão avassaladora nem amor à primeira vista de comédia romântica. Com o passar do tempo, a recíproca de sentimentos foi verdadeira de ambas as partes, vivemos muitos bons momentos juntos e felizes. Não era a relação idealizada perfeita, uma relação estável e real, eu tinha um companheiro que me respeitava e mimava, estava feliz assim.

Mas como nada é perfeito, também tivemos uma fase do nosso namoro que por ciúme e traição acabamos nos separando, o ciúme não justifica a traição, acredito que numa relação ambos são responsáveis. Por tanto tempo juntos, e o carinho um pelo outro, acabamos retomando com mais consciência de que um não era dono do outro, que a confiança era a sustentação de qualquer relacionamento.

Nossos conflitos antes de ter filhos

Quando resolvemos morar juntos, foi justamente como uma decisão para acabar com a distância que já havia desgastado nosso relacionamento de tantas formas. Resolvemos fazer um teste que acabou dando certo. Estando juntos na mesma casa, restabelecemos a nossa confiança, e voltamos a viver em harmonia.

Minhas brigas com ele eram sempre sobre coisas banais, era sobre o tênis jogado na sala, sobre eu “ter de pedir” para fazer alguma demanda da casa, e ele às vezes me falar que no tempo dele faria. Eu não conseguia respeitar o tempo dele, pois essa atitude me tirava do meu lugar de controle, e eu autossuficiente como era, muitas vezes resolvia fazer tudo sozinha pra ter o controle de tudo na hora que eu queria, e claro, reclamar dele depois.

Eu reclamava entre amigas dessas posturas, falando mal dos homens, do quanto eles eram mimados, folgados e acomodados, apesar do meu parceiro ser muito ativo e não ser nem metade disso, uma vez ou outra que ele não fazia algo ou quando eu achava que não tinha feito “bem feito”, eu me sentia injustiçada. Pensava que a divisão tinha de ser igualitária, e a vida acabava se tornando uma competição. Quem fazia mais, era melhor que o outro, e quem fazia menos, era pior. Claro, que muitas vezes, eu me achava superior. Hoje vejo o quanto isso dizia mais de crenças limitantes minhas relacionadas aos homens como herança do patriarcado, do que da real atuação do meu companheiro.

O que a chegada da nossa filha acarretou

Créditos da imagem: @o_trocatintas


Então, nossa filha nasceu, e os direitos iguais entre homens e mulheres que já falava alto pra mim, gritou, e a balança que na minha cabeça tinha que sempre estar equilibrada, senti que “pendeu totalmente pro meu lado”. Além das demandas da casa e comida que por muitas vezes eu assumia para ter o controle, ou seguindo os padrões da minha criação de que mulher que arruma a casa e cozinha, e o homem provê financeiramente e descansa, mas dentro de uma estrutura onde a mulher não trabalhava fora porque dentro da estrutura do nosso relacionamento onde os dois trabalhavam fora, ter um bebê dependente de mim vinte quatro horas por dia, me tirou o chão. Antes, eu dava conta sozinha, e ficava na minha superioridade, reclamava de vez em quando, mas não tinha maiores conflitos no relacionamento, e ia tocando. Mas com a chegada daquele bebê, tudo mudou. Eu não dava mais conta.

No começo, eu não tinha mesmo condições físicas de fazer nada, sou grata por ter contado com a ajuda da minha mãe, algumas vezes da minha sogra, e meu companheiro fazia o que ele podia, da forma que podia.

Depois que fui me recuperando, a “autossuficiente em mim” começou a reclamar que as coisas da casa feitas por ele, não estavam bem feitas, procurava motivos pra brigar.

Até o fato do bebê só se acalmar comigo – a mãe, eu achava equivocadamente que era porque meu companheiro não “assumia seu papel de pai”, por isso nossa filha queria ficar comigo o tempo todo, me sufocando. Como eu mencionei no meu texto anterior, eu nunca tinha ouvido falar sobre puerpério, sobre fusão emocional, exterogestação, sobre a criança se perceber nos primeiros meses de vida como uma extensão da mãe e continuar a espelhando emocionalmente por alguns anos a seguir. O que me restou, foi achar culpados pra tanta bagunça emocional, e obviamente que acabou respingando sobre a pessoa mais próxima, meu parceiro.

É claro que ele tem os defeitos dele, assim como eu tenho os meus, mas o filtro pelo qual eu o julgava era poluído de emoções embaralhadas, falta de informação, falta de autocuidado, falta de empatia, crenças limitantes de gêneros, crenças equivocadas de uma revolução feminista que pedia direitos trabalhistas iguais, e não direitos iguais dentro de uma estrutura familiar. Porque não, homem e mulher nunca poderão ser iguais dentro de uma família, o feminino abrange coisas que o masculino não, e vice-versa, e entender isso e me reconciliar com meu feminino dentro da minha família também está fazendo parte dos meus processos internos. Eu só consegui enxergar as coisas como elas realmente eram, e não como eu as imaginava, após terapias, o mínimo de autocuidado, e estudar muito. Muitos livros foram de grande valia nesse processo, eles sempre foram meus companheiros de viagem, e se tornaram meus grandes conselheiros.

O desejo de separação

A demanda só aumentava, trabalhar fora, fazer jornada dupla, e ainda lidar com a culpa de toda essa situação ficou pesado demais. Eu me culpava, e culpava meu companheiro por todo o caos que estávamos vivendo. Quando minha filha completou perto de um ano, eu comecei a pensar que já que eu tinha que “cuidar de tudo sozinha”, que melhor fosse a separação. Que aí sim, eu faria tudo sozinha, do meu jeito, e assumiria o peso de realmente estar sozinha com um bebê, porque esse era o sentimento confuso que eu apresentava em relação ao meu companheiro. Também começou a passar pela minha cabeça pensamentos de que eu merecia uma relação de contos de fada quando a minha nunca tinha sido, e agora então, estava péssima.

Esse é o momento do texto de esclarecer que a realidade não era assim como eu pensava e como descrevi acima, que eram essas as minhas percepções equivocadas, ego-ístas, minhas projeções decorrentes da minha profunda angústia puerperal, meu reforço às minhas crenças infantis de que eu tinha que fazer tudo sozinha, que eu tinha que dar conta de tudo sozinha… depois descobri também se tratar de uma espécie de depressão pós-parto.

O clima de tensão entre nós só piorava a cada dia, a presença de um já irritava o outro, eu ficava com raiva dele quando ele estava dirigindo e fazia qualquer comentário sobre o trânsito, impulsivamente corrigia quase tudo que ele falava ou fazia com nossa filha, e brigávamos na frente dela. Minha falta de autoconsciência era tanta que isso pra mim se tornou o normal, achava que minha filha tinha que se acostumar com as brigas, afinal o senso comum nos dizia para não poupar nossos filhos pois a vida é dura, deixar que aprendessem desde cedo, e quem não consegue ver a sua própria bússola interna segue o senso comum, que diz daquilo que fazemos sem questionar o porquê. Mas claro que não me sentia feliz com isso.

Então descobri e comecei a estudar sobre educação não violenta, sobre criação com apego, e minha cabeça ferveu mais ainda, a culpa aumentou e os desentendimentos com meu companheiro, pois queria aplicar aquelas premissas na criação da nossa filha à risca, e queria impor para ele que lesse mais a respeito e fizesse igual. Ledo engano o meu… achar que aplicaria uma educação não violenta, quando o clima da minha casa era de uma total violência, ainda que sutil, entre meu companheiro e eu.

Filhos como mestres

O estopim foi quando a minha filha teve pneumonia, e um dos significados dessa doença segundo a psicologia é falha na comunicação associada ao medo da morte. Sobre o medo da morte, abordarei oportunamente em outro texto, pois foi algo muito impactante pra mim.

Sobre a comunicação, eu e meu companheiro não conseguíamos trocar uma palavra sem brigar, e nossa pequena absorvendo tudo isso. Creio que nossos filhos não adoecem por acaso, e que cada doença traz um aprendizado específico para nós pais. O meu especificamente, foi um chamado para olhar pra mim mesma e toda essa situação.

Depois que ela adoeceu gravemente que pela primeira vez consegui enxergar que nós precisávamos de ajuda profissional. Foi quando fizemos osteopatia pediátrica na nossa filha, e começamos um tratamento de Microfisioterapia com ela e comigo, que se estendeu a toda família, e que nos ajudou imensamente a ter mais consciência do que estava acontecendo.


A mudança

Me encontrei também com um Programa de Alinhamento do Feminino e Masculino Internos, com a Clarissa Yakiara, que me trouxe tantos insights, tantos “tapas na cara”, e me fez tirar a máscara da autossuficiente e superior dentro de um relacionamento. Enxergando que tudo, ou quase tudo, se tratava de projeção minha sobre meu companheiro, vendo que aquilo que me incomodava nele, também dizia sobre mim.

Que as posturas que eu criticava dele, eu também as tinha, em menor ou maior grau. Muitas em maior grau, e eu não enxergava. Que somente assumindo a postura de autorresponsabilidade e co-responsabilidade pela relação estar no patamar que estava, assumindo a minha contribuição e minha parcela de culpa pelo relacionamento ir de mal à pior, algo poderia mudar.

Sem ajuda profissional, acho que eu não teria conseguido continuar no relacionamento, ou se tivesse continuado estaria vivendo num verdadeiro campo de batalha. Atualmente, eu e meu companheiro estamos nos refazendo enquanto casal, estamos enxergando mais um ao outro, e isso aumentou a empatia e o respeito na nossa família.

Práticas que fizeram a diferença

A primeira coisa que me fez mudar dentro da relação foi a minha auto-percepção, assumir meus erros com autorresponsabilidade, sem querer justificar minhas atitudes erradas em razão das atitudes erradas do outro, reconhecer que eu também tinha culpa da relação decadente que estava inserida.

Que da mesma forma que eu contribuía para a relação estar indo mal, eu podia contribuir para ela melhorar. Não com grandes gestos e nem rapidamente, mas com pequenas atitudes diárias, por exemplo “mordendo a língua” para evitar uma briga e engolindo o orgulho em prol da harmonia daquele momento. É claro que não é fácil, nem simples, mas se não começamos nunca, nunca melhora.

Fui desconstruindo as minhas crenças em relação a rotina da casa e alimentação, de que existe jeito certo pra arrumar isso ou aquilo, que a casa tem que estar arrumada sempre, que temos que comer brócolis todos os dias, que o único doce da criança tem que ser a uva passa religiosamente até os três anos, pois sempre que saia dessa linha era razão de briga e sofrimento pra mim.

Quebrei o paradigma de que tinha que dar conta de tudo e que meu companheiro era obrigado a me ajudar nessa missão e dividir as tarefas comigo matematicamente em todo o tempo, e a rigidez da rotina e da relação foi se suavizando. Percebi, por exemplo, que eu competia com ele em relação a descansar, eu ficava com raiva dele quando ele descansava enquanto eu estava acordada e fazendo as coisas que “tinham que ser feitas”, mas na verdade eu vi que não se tratava de quem descansava mais, e sim do quanto “eu não me permitia descansar”. E projetava nele essa raiva, que era muito mais de mim do que dele.

Abandonei a minha crença do relacionamento de contos de fadas, e passei a fazer força pra enxergar as coisas boas que sempre foram tantas na minha relação, as qualidades do meu companheiro que sempre prevaleceram sobre os defeitos, enxergar nele com olhos menos julgadores a pessoa de bem, que sempre me respeitou, me tratou com carinho, zelou pelo meu bem estar e de nossa família, o pai incrível que ele sempre se esforçou e se esforça pra ser.

Essa ilusão de relacionamento perfeito tem que cair por terra pra começarmos a olhar pro relacionamento real, possível, entre dois seres humanos falhos que dão o seu melhor pra fazer algo dar certo. Continuamos tendo problema, mas parei de criar falsas expectativas. Dessa forma, consigo olhar pro ser humano ao meu lado, que também está ali lidando com as dores dele e dando o que ele tem pra dar. Dessa forma, consigo exercitar a empatia.

Acima de tudo, eu tive que olhar pra mulher em mim além da mãe e da esposa, pra toda vida que deixei pra trás, e devagar fui me permitindo fazer programas sozinha, passei a frequentar um grupo de sagrado feminino mensalmente que me ajuda a olhar pra essa mulher. E o mais difícil, sem culpa. Acho que esse me permitir viver de novo sem culpa foi o que mais me reconectou a mim mesma, e ajudou a me reconectar com meu companheiro. Senti na pele, que se conectar com o outro quando estamos desconectados de nós mesmos não dá certo, essa conta não bate nunca!

Como não doer em nós quando o companheiro sai pra jogar bola com os amigos, se não nos permitimos fazer nada por nós mesmas sem ficar se remoendo por nosso filho que ficou “sozinho” com o pai e comeu pizza no jantar? Como saber se há vida de casal após a maternidade, se nos achamos tão egoisticamente essenciais na vida dos filhos ao ponto de não podermos sair pra jantar sozinhos uma vez e deixar o filho com alguém de confiança?

O amor sempre vence


É verdade que a chegada dos filhos coloca uma relação em xeque, é nesse momento que descobrimos se realmente queremos estar com aquela pessoa ou não, pois a demanda emocional e mudança na estrutura da nossa vida toda e da família, coloca tudo de pernas pro ar.

Acredito que ir ou permanecer é amar, amamos o quanto podemos, e da forma que podemos. E isso requer uma escolha. Sem escolha não há liberdade.

Se escolhemos ir é uma forma de amar a nós mesmos e ao outro, pois ficar sem disponibilidade de mudar é uma prisão de inocentes. Ir demanda coragem e é um processo que não se desenha da noite pro dia.

Ficar é uma forma de reconhecer a nós mesmos no outro, e isso também é amor. Também é necessária muita coragem e decisão firme para olhar para o outro como uma oportunidade de mudança, para resgatar e refazer uma relação pós filhos. Mas eu tenho conseguido diariamente, e digo que é possível sim, mesmo que em alguns dias eu não consiga, lembro da minha decisão de escolher ficar, e sigo. Pra mim tem sido uma experiência desafiadora e gratificante, que tem valido muito a pena!


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