quinta-feira, 1 de junho de 2023

Puerpério e a falência de si

 Definindo o puerpério 

Créditos da imagem: @o_trocatintas


Antes de ser mãe ou durante a gestação da minha primeira filha, nunca tinha ouvido falar nessa palavra difícil de falar chamada puerpério. Recorri ao dicionário para ver qual a definição que ele trás: “período que decorre desde o parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem às condições anteriores à gestação.”

A definição encontrada remete ao puerpério físico, aquele dos quarenta dias de pós parto, culturalmente chamado de “dieta”. Realmente, esse é o tempo necessário para o corpo da mulher ir se recuperando do parto, para os órgãos voltarem ao lugar, desinchar a barriga, recuperação da força física e poder voltar à atividade sexual.

Pouco se fala de puerpério físico, pouco se fala da “dieta”, eu nunca havia ouvido falar das tantas transformações que nosso corpo sofre depois de ter um filho, apesar de imaginar. Porém o imaginário idealizado é muito superficial, é só a ponta do iceberg. Se pouco fala-se de puerpério físico, que dirá do emocional, que pode durar até 3 anos ou mais, abordagem que ouvi pela primeira vez através da Laura Gutman.


Puerpério e as “nossas águas”

Quando o bebê nasce, é como se a mulher fosse inundada por “suas águas”, suas emoções. Faço a analogia com o líquido amniótico, que envolve o bebê na placenta durante seus nove meses de gestação, e que se derrama quando a bolsa é rompida. A permanência do bebê nessa água é muito simbólica para mim, pois nas águas do nosso corpo encontram-se registradas nossas emoções, astrologicamente nossas águas são as próprias emoções.

Ao mesmo tempo em que o bebê as toma para si, são elas que igualmente o protegem. Dessa forma, não há água ruim, ou emoções ruins, mas apenas emoções que o bebê passa a compartilhar com a mãe.

Quando há o derramamento dessas águas, ocorre a inundação. Uma vez inundada, a mulher tem a opção de sair da água e correr para bem longe dela, ou ela tem a opção de mergulhar nessas águas e desvendar seus mistérios. Descobrir seus tesouros.

Nossas águas são as emoções vividas durante toda nossa vida, representam nosso arcabouço emocional. Engloba aquelas emoções e sensações registradas desde nossa mais tenra infância. Quando ainda éramos apenas um embrião no ventre materno já registrávamos o entorno familiar e as emoções da nossa mãe.


O mergulho é uma escolha

O corpo humano é composto por 70% de água, então como não olhar para as nossas águas? As águas do nosso corpo representam também nosso sangue, e nosso sangue representa nossa família, nossos laços consanguíneos, nossas relações familiares, amorosas, de amizades. Nestes termos, como não associar puerpério com mergulho?! 

Pois bem. Puerpurar é se inundar, é olhar ao redor e só ver águas, em forma das mais variadas e contraditórias emoções, em forma de leite materno que jorra dos peitos empedrados, em forma de sangue que brota de mamilos fissurados, em forma de lágrimas, do bebê que chora de cólica, da mãe que chora por sentir tanta coisa e não entender quase nada.

As águas são inevitáveis, mas o mergulho é opcional. Escolher sair desse tanque de água, ou desse mar de emoções, é a decisão mais fácil de se tomar, e às vezes é a única atitude que damos conta de bancar. Reprimir tudo aquilo que vêm, escolher não sentir, escolher não olhar, não investigar o que há nos recônditos mais profundos dessas águas. Fora d’água é mais seguro e confortável. Escolher subir até a superfície, e nela permanecer. De fato, estar na superfície é mais seguro, e nos dá uma sensação de controlar os riscos, de controlar a vida. Mas nos priva do mistério, do desconhecido, das surpresas, dos tesouros escondidos que pode haver se escolhemos nos aprofundarmos, nos arriscarmos, se escolhemos nos abrir para receber a verdade. 


A solidão que há no mergulho

De fato, estar imerso nas profundezas das nossas emoções, da nossa psique, pode ser bem solitário. Esse é um lugar que ninguém pode ocupar por nós, e nem nos fazer companhia. A solidão que há nesse processo pode doer, e muito. Sangrar pelos poros.

Mas sabe aquelas situações da nossa vida que ninguém pode passar por nós? O puerpério é uma delas… Ele é tão único, particular e personalizado de acordo com toda nossa vivência emocional, quanto é difícil.

Porém, até hoje, não vivi nada mais transformador em toda minha vida, não experimentei solidão que me fizesse me apropriar tanto de quem sou de verdade como a solidão do puerpério. A solidão que ali reside, nos coloca contra a parede de nós mesmos, nos faz olhar de forma escancarada para o que somos, sem filtros. Ali vemos o quanto há a ser mudado, todos nossos defeitos e vergonhas que escondemos até de nós mesmos. Todas as máscaras caem, e só sobra o ser humano, cheio de limitações e medos.

Acho que essa solidão é necessária, para enxergarmos nossa humanidade, pois não tem como ser uma mãe possível sem olhar pra própria humanidade. E até nisso, o puerpério é belo.


Emergindo das profundezas


A verdade é a maior fonte de cura, é bíblico, “conhecerás a verdade, e ela vos libertará”! Por pior que seja o que encontramos ao mergulhar nas águas mais profundas de quem somos, durante nosso processo de puerpério, por mais dolorida que seja, a verdade liberta, a verdade cura, puramente e simplesmente assim.

Quando eu falo em tesouros, na maioria das vezes, os tesouros que encontramos ao mergulhar são em forma de curas, de transformação de vida, evolução como pessoa, crescimento emocional e espiritual.

Por isso que ao emergir do mergulho, emergimos mais íntegras, mais autênticas, mais humildes, mais conscientes das nossas contradições, dos nossos apegos. Ao nos darmos conta de que não controlamos nada, nos deparamos com nossa insignificância diante da vida, e percebemos que para nós só resta confiar. 

Confiar em Deus, confiar nos propósitos maiores da vida, confiar em nossa capacidade de ser o que somos ou em nossa incapacidade de fazermos diferente do que podemos, confiar nos nossos instintos, confiar nos nossos filhos. 

Esse também considero um presente do puerpério, a capacidade de confiar, ou o resgate da nossa capacidade de confiar, o que nos torna mais espiritualizados, mais próximos do divino. Nos proporciona a volta pra casa, como o filho pródigo.

Após emergir mais fortes, inteiras e mais conscientes, ainda que cheia de cicatrizes, nos damos conta do quanto o mergulho valeu a pena, do quanto nossas cicatrizes são tatuagens do nosso poder de superação, da nossa capacidade de se reinventar como mulheres e como mães, o reflexo da resiliência materna.


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