sexta-feira, 23 de junho de 2023

Para minha primogênita amada Olívia


Minha amada filha


Quando eu partir, 

sei que você vai sofrer muito

Que minha ausência será um buraco sem fundo

Que você vai querer morrer junto comigo

Pensar em desfazer da sua própria vida


Quando eu partir,

Sei que você não verá mais sentido nas coisas

Que você vai querer desistir de tudo

Sei que vai doer tanto, mas tanto

Sei que vai ser uma dor insuportável


Quando eu partir,

Sei que você vai desejar que o mundo acabe

Sei que você vai chorar lágrimas de sangue

Que você se sentirá tão, mas tão sozinha

Que vai parecer que só existe você no mundo


Quando eu partir,

Sei que você vai sentir que um pedaço seu se foi

Que o seu coração se partiu em mil pedaços 

Que cada pedaço seu, se perdeu em mim

Que sua alma foi arrebatada junto com minha ida


Quando eu partir,

Sei que você vai ficar se perguntando muitas coisas

Se você me amou o suficiente,

Se você demonstrou amor suficiente

Se você foi uma boa filha ou não

Se você honrou a mim em você


Quando eu partir,

Sei que será um dos momentos mais difíceis da sua vida

Sei que você será tomada de sentimentos ruins

Que o tempo ficará nublado por dentro por dias a fio

Talvez você não conseguirá levantar da cama 

Talvez você achará que nunca mais vai conseguir sorrir




Ah, minha filha, quando eu partir!!!!

Pode ter certeza que eu irei sem querer ir

Pois me separar de você vai doer demais

Mas sabendo que minha hora chegou

Eu me conformarei e irei de cabeça erguida

Eu tentarei olhar pra tudo que vivi, e então agradecer


Quando eu partir,

O seu rosto e da sua irmã me acompanharão

Olharei neles mais uma vez, e sorrirei

Pois terei no meu coração a maior certeza de todas

De que apenas por vocês existirem por meio de mim

Minha vida e minha morte valeu cada segundo


Quando eu partir,

Eu serei grata por ter sido o canal que te trouxe pra vida

Por ter renascido através do seu nascimento

Por ter aprendido tanto, mas tanto através de você

Sobretudo por ter re-aprendido a amar

E também a me amar.


Quando eu partir,

Um filme lindo vai passar na minha cabeça

Terei flashs de cada momento que mudou minha vida

Lembrarei do quanto renasci pra minha vida 

quando você nasceu

O mundo ficou novo, depois do dia que você chegou

Você nasceu de mim, e eu renasci de você

E desse renascimento, eu tive uma vida tão feliz


Quando eu partir,

Lembrarei dos seus cachinhos que eu arrumava com tanto amor

Do seu cheiro, da sua voz, do seu abraço

Me lembrarei do quanto eu amava olhar dentro dos seus olhos

Cantar pra você dormir, dormir abraçadinha com você


Quando eu partir,

Sei que será muito doloroso,

Que o luto te acompanhará por muito tempo

E isso é normal, minha menina

Não sei te dizer quando a dor passará

Ou se ela chagará a passar

Isso será muito pessoal, muito seu


Mas, quando eu partir,

Não sei se tenho o direito de te pedir algo

Mas saiba que eu gostaria que você seguisse em frente

Que você não deixe de amar a vida, como você sempre amou

Que você não desista de você

Que você encontre novamente motivos para sorrir


Quando eu partir,

Que você olhe pro céu e se lembre que estou lá

Que você me veja dançando pra lua quando olhar pra ela

Como você fez comigo muitas vezes quando era criança

Que você me veja no pôr-do-sol

Nas árvores, nas flores, na natureza


Quando eu partir,

Pense que eu sou bem pequenininha 

E que você está me colocando no seu coração

Pois tenha certeza que nele permanecerei

Te amando e apoiando em todas as suas decisões


Quando eu partir,

Nunca se esqueça que você não está sozinha

Que você é suficiente, desejada, e sempre foi amada

Que você é capaz, que você importa, você é especial

Que você é amor, é luz, e também sombra

Que não existe sombra sem luz

Por isso nunca se esqueça da beleza que há na imperfeição


Quando eu partir,

Não tenha medo de chorar,

Não tema a solidão

Não pense que é o meu fim

Eu não morro, eu entro pra vida

Que basta olhar pra você, pra me ver

Porque você é minha melhor versão

E estarei com você eternamente!


Quando eu partir,

Creia, não é o fim

É apenas um até logo

Chore o quanto precisar, coloque pra fora

Como sempre te ensinei

Mas não deixe de ter fé de que um dia iremos nos re-encontrar

Não perca a fé no meu amor por você

Ele é eterno, meu amor!!!

Quando eu partir,

Se puder, fique bem

Se não puder, peça ajuda, se una a quem te ama

Te prometo, que vai passar

Te prometo, que vai amenizar

Te prometo que não te abandonarei jamais!

Minha menina estrela

Sorria! Seu sorriso sempre me iluminou!


Quando eu partir... só continue! 

Continue filha! Continue....

Quero que você seja feliz!

Faça algo bonito da sua vida

Se esforce pra encontrar alegria nas pequenas coisas

E ser feliz, mesmo quando estiver triste

Não desista da sua paz interior

Não desista de você!!


Te prometo que vai ficar tudo bem 


(...) 

Ps: deixo as reticências pra você preencher.




(Texto escrito pra você, depois que você me disse que quando eu morresse, você se mataria).




quinta-feira, 1 de junho de 2023

Puerpério e a falência de si

 Definindo o puerpério 

Créditos da imagem: @o_trocatintas


Antes de ser mãe ou durante a gestação da minha primeira filha, nunca tinha ouvido falar nessa palavra difícil de falar chamada puerpério. Recorri ao dicionário para ver qual a definição que ele trás: “período que decorre desde o parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem às condições anteriores à gestação.”

A definição encontrada remete ao puerpério físico, aquele dos quarenta dias de pós parto, culturalmente chamado de “dieta”. Realmente, esse é o tempo necessário para o corpo da mulher ir se recuperando do parto, para os órgãos voltarem ao lugar, desinchar a barriga, recuperação da força física e poder voltar à atividade sexual.

Pouco se fala de puerpério físico, pouco se fala da “dieta”, eu nunca havia ouvido falar das tantas transformações que nosso corpo sofre depois de ter um filho, apesar de imaginar. Porém o imaginário idealizado é muito superficial, é só a ponta do iceberg. Se pouco fala-se de puerpério físico, que dirá do emocional, que pode durar até 3 anos ou mais, abordagem que ouvi pela primeira vez através da Laura Gutman.


Puerpério e as “nossas águas”

Quando o bebê nasce, é como se a mulher fosse inundada por “suas águas”, suas emoções. Faço a analogia com o líquido amniótico, que envolve o bebê na placenta durante seus nove meses de gestação, e que se derrama quando a bolsa é rompida. A permanência do bebê nessa água é muito simbólica para mim, pois nas águas do nosso corpo encontram-se registradas nossas emoções, astrologicamente nossas águas são as próprias emoções.

Ao mesmo tempo em que o bebê as toma para si, são elas que igualmente o protegem. Dessa forma, não há água ruim, ou emoções ruins, mas apenas emoções que o bebê passa a compartilhar com a mãe.

Quando há o derramamento dessas águas, ocorre a inundação. Uma vez inundada, a mulher tem a opção de sair da água e correr para bem longe dela, ou ela tem a opção de mergulhar nessas águas e desvendar seus mistérios. Descobrir seus tesouros.

Nossas águas são as emoções vividas durante toda nossa vida, representam nosso arcabouço emocional. Engloba aquelas emoções e sensações registradas desde nossa mais tenra infância. Quando ainda éramos apenas um embrião no ventre materno já registrávamos o entorno familiar e as emoções da nossa mãe.


O mergulho é uma escolha

O corpo humano é composto por 70% de água, então como não olhar para as nossas águas? As águas do nosso corpo representam também nosso sangue, e nosso sangue representa nossa família, nossos laços consanguíneos, nossas relações familiares, amorosas, de amizades. Nestes termos, como não associar puerpério com mergulho?! 

Pois bem. Puerpurar é se inundar, é olhar ao redor e só ver águas, em forma das mais variadas e contraditórias emoções, em forma de leite materno que jorra dos peitos empedrados, em forma de sangue que brota de mamilos fissurados, em forma de lágrimas, do bebê que chora de cólica, da mãe que chora por sentir tanta coisa e não entender quase nada.

As águas são inevitáveis, mas o mergulho é opcional. Escolher sair desse tanque de água, ou desse mar de emoções, é a decisão mais fácil de se tomar, e às vezes é a única atitude que damos conta de bancar. Reprimir tudo aquilo que vêm, escolher não sentir, escolher não olhar, não investigar o que há nos recônditos mais profundos dessas águas. Fora d’água é mais seguro e confortável. Escolher subir até a superfície, e nela permanecer. De fato, estar na superfície é mais seguro, e nos dá uma sensação de controlar os riscos, de controlar a vida. Mas nos priva do mistério, do desconhecido, das surpresas, dos tesouros escondidos que pode haver se escolhemos nos aprofundarmos, nos arriscarmos, se escolhemos nos abrir para receber a verdade. 


A solidão que há no mergulho

De fato, estar imerso nas profundezas das nossas emoções, da nossa psique, pode ser bem solitário. Esse é um lugar que ninguém pode ocupar por nós, e nem nos fazer companhia. A solidão que há nesse processo pode doer, e muito. Sangrar pelos poros.

Mas sabe aquelas situações da nossa vida que ninguém pode passar por nós? O puerpério é uma delas… Ele é tão único, particular e personalizado de acordo com toda nossa vivência emocional, quanto é difícil.

Porém, até hoje, não vivi nada mais transformador em toda minha vida, não experimentei solidão que me fizesse me apropriar tanto de quem sou de verdade como a solidão do puerpério. A solidão que ali reside, nos coloca contra a parede de nós mesmos, nos faz olhar de forma escancarada para o que somos, sem filtros. Ali vemos o quanto há a ser mudado, todos nossos defeitos e vergonhas que escondemos até de nós mesmos. Todas as máscaras caem, e só sobra o ser humano, cheio de limitações e medos.

Acho que essa solidão é necessária, para enxergarmos nossa humanidade, pois não tem como ser uma mãe possível sem olhar pra própria humanidade. E até nisso, o puerpério é belo.


Emergindo das profundezas


A verdade é a maior fonte de cura, é bíblico, “conhecerás a verdade, e ela vos libertará”! Por pior que seja o que encontramos ao mergulhar nas águas mais profundas de quem somos, durante nosso processo de puerpério, por mais dolorida que seja, a verdade liberta, a verdade cura, puramente e simplesmente assim.

Quando eu falo em tesouros, na maioria das vezes, os tesouros que encontramos ao mergulhar são em forma de curas, de transformação de vida, evolução como pessoa, crescimento emocional e espiritual.

Por isso que ao emergir do mergulho, emergimos mais íntegras, mais autênticas, mais humildes, mais conscientes das nossas contradições, dos nossos apegos. Ao nos darmos conta de que não controlamos nada, nos deparamos com nossa insignificância diante da vida, e percebemos que para nós só resta confiar. 

Confiar em Deus, confiar nos propósitos maiores da vida, confiar em nossa capacidade de ser o que somos ou em nossa incapacidade de fazermos diferente do que podemos, confiar nos nossos instintos, confiar nos nossos filhos. 

Esse também considero um presente do puerpério, a capacidade de confiar, ou o resgate da nossa capacidade de confiar, o que nos torna mais espiritualizados, mais próximos do divino. Nos proporciona a volta pra casa, como o filho pródigo.

Após emergir mais fortes, inteiras e mais conscientes, ainda que cheia de cicatrizes, nos damos conta do quanto o mergulho valeu a pena, do quanto nossas cicatrizes são tatuagens do nosso poder de superação, da nossa capacidade de se reinventar como mulheres e como mães, o reflexo da resiliência materna.


Quarentena e o encontro com nós mesmos

 

A perda do controle

A quarentena e toda a complexidade que estamos vivendo no mundo devido à pandemia, chegou inesperadamente e tirou o chão de todos.

Eu que há dois anos optei por não ver os noticiários por absorver demais as notícias ruins, só tive dimensão do que estava acontecendo quando a escola da minha filha suspendeu as aulas.

Meu marido e eu trabalhamos juntos e nosso horário era cronometrado com o da escola da nossa filha, tínhamos tudo sob controle. Não ter escola pra ela, para nós podermos trabalhar normalmente, foi o primeiro gatilho pra mim.

Fiquei aflita e dividida entre o desejo de cuidar dela de perto num momento como esse, ao mesmo tempo em que me afastei do trabalho, cheia de preocupações pois desempenho uma função de confiança e meu trabalho não teve opção de ficar em home office.

Naturalmente, não ter o controle sobre os acontecimentos me deixou angustiada, com a mente agitada, pensando em mil possibilidades negativas diferentes. Como em geral são os pensamentos que geram as emoções, consequentemente meu campo emocional sofreu um grande impacto, trazendo à tona as mais diversas emoções negativas, como o medo, insegurança, tristeza. Quando todo planejamento se torna ilusório, nossa mente fica perdida e isso reflete nas nossas emoções.

O ciclo do pensamento negativo

Percebo que na minha vida o medo é a emoção mais predominante, e sempre que ele vem sinto-o em meu corpo todo, ele começa no meu plexo solar, que é a região da barriga e estômago, traz uma onda de mal estar físico generalizado e uma angústia se instala em meu peito.

Quanto mais angustiada eu fico mais pensamentos negativos eu produzo, e quanto mais pensamentos negativos mais angústia. Esse é o ciclo do medo no meu corpo.

Essas sensações que experimento em meu corpo dizem algo sobre mim, esse contexto inesperado que traz esse medo, me faz reviver sensações físicas e emocionais que eu já vivi antes, possivelmente na infância, e de certa forma elas vêm para serem olhadas e integradas. Se ignoro a mensagem que há por trás desse medo, por exemplo, perco uma grande oportunidade de me conhecer melhor, de saber sobre o que sinto, de conhecer meu corpo e quem sou de verdade além dessas sensações. Perco uma grande oportunidade de cura através do autoconhecimento.

Mas sinto que no momento em que estou com meu corpo nesse colapso nervoso, primeiramente preciso sair desse estado, distraindo minha mente, trocando esses pensamentos por pensamentos mais positivos, movimentando meu corpo, mudando minha mente do lugar ilusório do passado ou futuro, e trazendo para o presente.

Tenho me sentido assim por diversas vezes durante essa quarentena, precisando lidar com minha mente o tempo todo, e por muitos momentos quando me dou conta já perdi o controle dela e meu corpo está paralisado no estado que descrevi acima. Às vezes, melhora rápido, às vezes fica um dia todo ou até mais em meu corpo… como tenho dito: dias bons, dias ruins. Ainda bem que nós, mães, pais, estamos acostumados com essa realidade na maternagem, de certa forma nos ajuda a lidar.

Medo do futuro e da morte

Quando nossa mente está preocupada com o que há de vir, está atuando no futuro, fora do presente, que é o único momento que realmente existe. Porém, estamos tão treinados a viver no futuro que pelo automatismo do nosso inconsciente não conseguimos sair de lá tão facilmente quando nos deparamos com algo que tira nosso controle e planejamento, e que desperta pensamentos e emoções negativas em nós, como é o caso do momento que estamos vivendo.

Desde cedo nos ensinaram que temos que pensar no nosso futuro, em ser “alguém na vida”, e não trago isso de forma negativa. Só quero chamar a atenção para as convenções que nos ensinaram desde sempre a focar no futuro, que colocamos nossa felicidade nele, nossa realização, nossa paz. Porém, só temos o presente, e num momento como esse podemos olhar pra isso com mais consciência e rever alguns conceitos. Estou tentando fazer isso.

Mas creio que o medo do futuro seja inevitável, e por mais que tentemos evitar, os pensamentos fatalistas estão vindo. As crises emocionais estão vindo. O medo de morrer, de perder alguém que amamos, nossos filhos, nossos pais… Sabemos que muitos já perderam e estão sofrendo seu luto nesse momento, estão lidando com a morte e seus mistérios.

Eu tenho lidado com o medo da morte diariamente, me questionado por que vim pra esse mundo, o que estou fazendo aqui, qual o propósito disso tudo, por que dói tanto perder um ente amado ou somente pensar nessa possibilidade, por que a morte é esse grande enigma e nos assombra tanto. E tudo que eu sei é que não tenho nenhuma resposta exata pra nenhuma dessas perguntas.

Formas de manter a paz em meio a todas as incertezas

Como eu disse acima, não existe resposta exata para a maioria dessas perguntas existenciais, não existe fórmula mágica para lidar com nossa mente, nem com nossas emoções.

Entendo que o medo do futuro e da morte são reflexo da falta de confiança, de fé no que vem depois. Quando penso que a natureza é farta e sábia e não deixará faltar o necessário para que eu sobreviva, eu fico em paz. Quando penso que mesmo depois que eu morrer, eu continuarei vivendo, eu fico em paz. Quando penso que antes de ser minha, a minha filha é filha de Deus, e eu fui apenas um canal pra que ela estivesse aqui, eu fico em paz. Quando penso que se minha filha morrer antes de mim, isso já estava acordado entre nós antes de virmos pra cá, eu fico em paz. Quando penso que não há separação, pois somos todos parte de um Todo, e de certa forma sempre estaremos juntos, eu fico em paz. Quando penso que existe uma Inteligência cuidando de tudo que não podemos entender, eu fico em paz. Quando penso que essa mesma Inteligência, que pra mim é Deus, está comigo, eu fico em paz.

A dor muitas vezes é inevitável, mas se tivermos paz pra lidar com ela, tenho certeza que será mais leve. Por isso que em minhas orações eu não peço pra entender, eu peço para ter paz para aceitar aquilo que não posso entender, e assim eu sigo.

A forma que eu encontrei de ficar bem foi estruturando essas crenças na minha mente, e confiando no mistério da vida. Funciona em boa parte do tempo, nas outras estou vivendo os emaranhamentos da falta de confiança, que geram os estados que citei, afinal sou humana e a vida não é uma linha reta.

Se posso te dizer algo é que encontre as crenças que te tragam paz, assim como eu encontrei as minhas. Na hora do colapso nervoso, o que me traz para o presente é pedir um abraço apertado pro marido ou pra filha, rezar e chorar no chuveiro, meditar, respirar, respirar, respirar, rezar antes de dormir, alongar, mudar o pensamento, encontrar um lugar interno de paz, um lugar que amo estar e pra onde posso ir quando eu quiser e precisar. Brincar com minha filha com conexão, fazer uma comida gostosa com atenção plena, comer algo que gosto, organizar a casa com atenção plena, colocar uma música que eu amo e sei a letra e cantar junto bem alto, dançar. Esses dias tirei da prateleira um CD da Ana Carolina e cantei todas as músicas a plenos pulmões… eu tinha me esquecido de como amava fazer isso, e me fez tão bem! Me tirou de um estado deprimido que estava fazia dias.

Nessa quarentena, assim como na vida, encontre aquilo que te nutre, te faz bem, te ajude a voltar para o aqui agora, te ajude a ter confiança na vida e no que vem depois, te enche de paz mesmo quando fora tudo é guerra. Eu também estou nessa busca com você, e sei que isso se estenderá enquanto respirarmos, pois isso é a vida!


(Texto postado originalmente em 2020)


Relacionamento do casal antes e após a maternidade

 

O antes

Quando tive minha filha eu já estava junto com meu companheiro há cerca de 12 anos, ele foi meu primeiro namorado, chegamos a ficar um período separados, e depois retomamos o relacionamento que perdura até agora, quase 15 anos.

Sempre tivemos um relacionamento respeitoso, compartilhamos alguns hobbies e paixões em comum como pela literatura, história, música, escrever. Quando fomos morar juntos, curtimos bastante a vida do nosso modo, gostávamos de estar entre casais amigos, e o que realmente nos definia era nosso amor a “nosso cantinho”, nossa solidão, lendo, cozinhando, vendo filmes, séries, vivendo no nosso mundinho particular. Que saudade desse tempo!

De certa forma, mesmo tendo coisas em comum, cada um também tinha seus próprios hobbies e manias, ele sempre dedicou seu tempo livre a sua revista, site e música, e eu aproveitava meu tempo vago pra cuidar da minha aparência física, pra ler livros e minhas revistas de moda e decoração, eu amava ficar vendo a nova tendência ou cor da moda.

Assim era nossa vida, nada nos abalava, vivíamos na “nossa bolha”, curtíamos nossa privacidade, nossa solidão por opção, éramos jovens pouco ambiciosos, muito acomodados na zona de conforto de um relacionamento tranquilo.

Como eram os sentimentos na relação

Na minha opinião, sempre existe entre o casal aquele que se interessa primeiro, e aquele que se deixa interessar. O que se interessa sempre vai “amar mais” que o outro. No nosso caso, foi meu companheiro que se interessou, e eu acabei gostando da forma como ele me tratava, me agradava, me elogiava mesmo quando estava desarrumada, me enchia de presentes.

Não foi paixão avassaladora nem amor à primeira vista de comédia romântica. Com o passar do tempo, a recíproca de sentimentos foi verdadeira de ambas as partes, vivemos muitos bons momentos juntos e felizes. Não era a relação idealizada perfeita, uma relação estável e real, eu tinha um companheiro que me respeitava e mimava, estava feliz assim.

Mas como nada é perfeito, também tivemos uma fase do nosso namoro que por ciúme e traição acabamos nos separando, o ciúme não justifica a traição, acredito que numa relação ambos são responsáveis. Por tanto tempo juntos, e o carinho um pelo outro, acabamos retomando com mais consciência de que um não era dono do outro, que a confiança era a sustentação de qualquer relacionamento.

Nossos conflitos antes de ter filhos

Quando resolvemos morar juntos, foi justamente como uma decisão para acabar com a distância que já havia desgastado nosso relacionamento de tantas formas. Resolvemos fazer um teste que acabou dando certo. Estando juntos na mesma casa, restabelecemos a nossa confiança, e voltamos a viver em harmonia.

Minhas brigas com ele eram sempre sobre coisas banais, era sobre o tênis jogado na sala, sobre eu “ter de pedir” para fazer alguma demanda da casa, e ele às vezes me falar que no tempo dele faria. Eu não conseguia respeitar o tempo dele, pois essa atitude me tirava do meu lugar de controle, e eu autossuficiente como era, muitas vezes resolvia fazer tudo sozinha pra ter o controle de tudo na hora que eu queria, e claro, reclamar dele depois.

Eu reclamava entre amigas dessas posturas, falando mal dos homens, do quanto eles eram mimados, folgados e acomodados, apesar do meu parceiro ser muito ativo e não ser nem metade disso, uma vez ou outra que ele não fazia algo ou quando eu achava que não tinha feito “bem feito”, eu me sentia injustiçada. Pensava que a divisão tinha de ser igualitária, e a vida acabava se tornando uma competição. Quem fazia mais, era melhor que o outro, e quem fazia menos, era pior. Claro, que muitas vezes, eu me achava superior. Hoje vejo o quanto isso dizia mais de crenças limitantes minhas relacionadas aos homens como herança do patriarcado, do que da real atuação do meu companheiro.

O que a chegada da nossa filha acarretou

Créditos da imagem: @o_trocatintas


Então, nossa filha nasceu, e os direitos iguais entre homens e mulheres que já falava alto pra mim, gritou, e a balança que na minha cabeça tinha que sempre estar equilibrada, senti que “pendeu totalmente pro meu lado”. Além das demandas da casa e comida que por muitas vezes eu assumia para ter o controle, ou seguindo os padrões da minha criação de que mulher que arruma a casa e cozinha, e o homem provê financeiramente e descansa, mas dentro de uma estrutura onde a mulher não trabalhava fora porque dentro da estrutura do nosso relacionamento onde os dois trabalhavam fora, ter um bebê dependente de mim vinte quatro horas por dia, me tirou o chão. Antes, eu dava conta sozinha, e ficava na minha superioridade, reclamava de vez em quando, mas não tinha maiores conflitos no relacionamento, e ia tocando. Mas com a chegada daquele bebê, tudo mudou. Eu não dava mais conta.

No começo, eu não tinha mesmo condições físicas de fazer nada, sou grata por ter contado com a ajuda da minha mãe, algumas vezes da minha sogra, e meu companheiro fazia o que ele podia, da forma que podia.

Depois que fui me recuperando, a “autossuficiente em mim” começou a reclamar que as coisas da casa feitas por ele, não estavam bem feitas, procurava motivos pra brigar.

Até o fato do bebê só se acalmar comigo – a mãe, eu achava equivocadamente que era porque meu companheiro não “assumia seu papel de pai”, por isso nossa filha queria ficar comigo o tempo todo, me sufocando. Como eu mencionei no meu texto anterior, eu nunca tinha ouvido falar sobre puerpério, sobre fusão emocional, exterogestação, sobre a criança se perceber nos primeiros meses de vida como uma extensão da mãe e continuar a espelhando emocionalmente por alguns anos a seguir. O que me restou, foi achar culpados pra tanta bagunça emocional, e obviamente que acabou respingando sobre a pessoa mais próxima, meu parceiro.

É claro que ele tem os defeitos dele, assim como eu tenho os meus, mas o filtro pelo qual eu o julgava era poluído de emoções embaralhadas, falta de informação, falta de autocuidado, falta de empatia, crenças limitantes de gêneros, crenças equivocadas de uma revolução feminista que pedia direitos trabalhistas iguais, e não direitos iguais dentro de uma estrutura familiar. Porque não, homem e mulher nunca poderão ser iguais dentro de uma família, o feminino abrange coisas que o masculino não, e vice-versa, e entender isso e me reconciliar com meu feminino dentro da minha família também está fazendo parte dos meus processos internos. Eu só consegui enxergar as coisas como elas realmente eram, e não como eu as imaginava, após terapias, o mínimo de autocuidado, e estudar muito. Muitos livros foram de grande valia nesse processo, eles sempre foram meus companheiros de viagem, e se tornaram meus grandes conselheiros.

O desejo de separação

A demanda só aumentava, trabalhar fora, fazer jornada dupla, e ainda lidar com a culpa de toda essa situação ficou pesado demais. Eu me culpava, e culpava meu companheiro por todo o caos que estávamos vivendo. Quando minha filha completou perto de um ano, eu comecei a pensar que já que eu tinha que “cuidar de tudo sozinha”, que melhor fosse a separação. Que aí sim, eu faria tudo sozinha, do meu jeito, e assumiria o peso de realmente estar sozinha com um bebê, porque esse era o sentimento confuso que eu apresentava em relação ao meu companheiro. Também começou a passar pela minha cabeça pensamentos de que eu merecia uma relação de contos de fada quando a minha nunca tinha sido, e agora então, estava péssima.

Esse é o momento do texto de esclarecer que a realidade não era assim como eu pensava e como descrevi acima, que eram essas as minhas percepções equivocadas, ego-ístas, minhas projeções decorrentes da minha profunda angústia puerperal, meu reforço às minhas crenças infantis de que eu tinha que fazer tudo sozinha, que eu tinha que dar conta de tudo sozinha… depois descobri também se tratar de uma espécie de depressão pós-parto.

O clima de tensão entre nós só piorava a cada dia, a presença de um já irritava o outro, eu ficava com raiva dele quando ele estava dirigindo e fazia qualquer comentário sobre o trânsito, impulsivamente corrigia quase tudo que ele falava ou fazia com nossa filha, e brigávamos na frente dela. Minha falta de autoconsciência era tanta que isso pra mim se tornou o normal, achava que minha filha tinha que se acostumar com as brigas, afinal o senso comum nos dizia para não poupar nossos filhos pois a vida é dura, deixar que aprendessem desde cedo, e quem não consegue ver a sua própria bússola interna segue o senso comum, que diz daquilo que fazemos sem questionar o porquê. Mas claro que não me sentia feliz com isso.

Então descobri e comecei a estudar sobre educação não violenta, sobre criação com apego, e minha cabeça ferveu mais ainda, a culpa aumentou e os desentendimentos com meu companheiro, pois queria aplicar aquelas premissas na criação da nossa filha à risca, e queria impor para ele que lesse mais a respeito e fizesse igual. Ledo engano o meu… achar que aplicaria uma educação não violenta, quando o clima da minha casa era de uma total violência, ainda que sutil, entre meu companheiro e eu.

Filhos como mestres

O estopim foi quando a minha filha teve pneumonia, e um dos significados dessa doença segundo a psicologia é falha na comunicação associada ao medo da morte. Sobre o medo da morte, abordarei oportunamente em outro texto, pois foi algo muito impactante pra mim.

Sobre a comunicação, eu e meu companheiro não conseguíamos trocar uma palavra sem brigar, e nossa pequena absorvendo tudo isso. Creio que nossos filhos não adoecem por acaso, e que cada doença traz um aprendizado específico para nós pais. O meu especificamente, foi um chamado para olhar pra mim mesma e toda essa situação.

Depois que ela adoeceu gravemente que pela primeira vez consegui enxergar que nós precisávamos de ajuda profissional. Foi quando fizemos osteopatia pediátrica na nossa filha, e começamos um tratamento de Microfisioterapia com ela e comigo, que se estendeu a toda família, e que nos ajudou imensamente a ter mais consciência do que estava acontecendo.


A mudança

Me encontrei também com um Programa de Alinhamento do Feminino e Masculino Internos, com a Clarissa Yakiara, que me trouxe tantos insights, tantos “tapas na cara”, e me fez tirar a máscara da autossuficiente e superior dentro de um relacionamento. Enxergando que tudo, ou quase tudo, se tratava de projeção minha sobre meu companheiro, vendo que aquilo que me incomodava nele, também dizia sobre mim.

Que as posturas que eu criticava dele, eu também as tinha, em menor ou maior grau. Muitas em maior grau, e eu não enxergava. Que somente assumindo a postura de autorresponsabilidade e co-responsabilidade pela relação estar no patamar que estava, assumindo a minha contribuição e minha parcela de culpa pelo relacionamento ir de mal à pior, algo poderia mudar.

Sem ajuda profissional, acho que eu não teria conseguido continuar no relacionamento, ou se tivesse continuado estaria vivendo num verdadeiro campo de batalha. Atualmente, eu e meu companheiro estamos nos refazendo enquanto casal, estamos enxergando mais um ao outro, e isso aumentou a empatia e o respeito na nossa família.

Práticas que fizeram a diferença

A primeira coisa que me fez mudar dentro da relação foi a minha auto-percepção, assumir meus erros com autorresponsabilidade, sem querer justificar minhas atitudes erradas em razão das atitudes erradas do outro, reconhecer que eu também tinha culpa da relação decadente que estava inserida.

Que da mesma forma que eu contribuía para a relação estar indo mal, eu podia contribuir para ela melhorar. Não com grandes gestos e nem rapidamente, mas com pequenas atitudes diárias, por exemplo “mordendo a língua” para evitar uma briga e engolindo o orgulho em prol da harmonia daquele momento. É claro que não é fácil, nem simples, mas se não começamos nunca, nunca melhora.

Fui desconstruindo as minhas crenças em relação a rotina da casa e alimentação, de que existe jeito certo pra arrumar isso ou aquilo, que a casa tem que estar arrumada sempre, que temos que comer brócolis todos os dias, que o único doce da criança tem que ser a uva passa religiosamente até os três anos, pois sempre que saia dessa linha era razão de briga e sofrimento pra mim.

Quebrei o paradigma de que tinha que dar conta de tudo e que meu companheiro era obrigado a me ajudar nessa missão e dividir as tarefas comigo matematicamente em todo o tempo, e a rigidez da rotina e da relação foi se suavizando. Percebi, por exemplo, que eu competia com ele em relação a descansar, eu ficava com raiva dele quando ele descansava enquanto eu estava acordada e fazendo as coisas que “tinham que ser feitas”, mas na verdade eu vi que não se tratava de quem descansava mais, e sim do quanto “eu não me permitia descansar”. E projetava nele essa raiva, que era muito mais de mim do que dele.

Abandonei a minha crença do relacionamento de contos de fadas, e passei a fazer força pra enxergar as coisas boas que sempre foram tantas na minha relação, as qualidades do meu companheiro que sempre prevaleceram sobre os defeitos, enxergar nele com olhos menos julgadores a pessoa de bem, que sempre me respeitou, me tratou com carinho, zelou pelo meu bem estar e de nossa família, o pai incrível que ele sempre se esforçou e se esforça pra ser.

Essa ilusão de relacionamento perfeito tem que cair por terra pra começarmos a olhar pro relacionamento real, possível, entre dois seres humanos falhos que dão o seu melhor pra fazer algo dar certo. Continuamos tendo problema, mas parei de criar falsas expectativas. Dessa forma, consigo olhar pro ser humano ao meu lado, que também está ali lidando com as dores dele e dando o que ele tem pra dar. Dessa forma, consigo exercitar a empatia.

Acima de tudo, eu tive que olhar pra mulher em mim além da mãe e da esposa, pra toda vida que deixei pra trás, e devagar fui me permitindo fazer programas sozinha, passei a frequentar um grupo de sagrado feminino mensalmente que me ajuda a olhar pra essa mulher. E o mais difícil, sem culpa. Acho que esse me permitir viver de novo sem culpa foi o que mais me reconectou a mim mesma, e ajudou a me reconectar com meu companheiro. Senti na pele, que se conectar com o outro quando estamos desconectados de nós mesmos não dá certo, essa conta não bate nunca!

Como não doer em nós quando o companheiro sai pra jogar bola com os amigos, se não nos permitimos fazer nada por nós mesmas sem ficar se remoendo por nosso filho que ficou “sozinho” com o pai e comeu pizza no jantar? Como saber se há vida de casal após a maternidade, se nos achamos tão egoisticamente essenciais na vida dos filhos ao ponto de não podermos sair pra jantar sozinhos uma vez e deixar o filho com alguém de confiança?

O amor sempre vence


É verdade que a chegada dos filhos coloca uma relação em xeque, é nesse momento que descobrimos se realmente queremos estar com aquela pessoa ou não, pois a demanda emocional e mudança na estrutura da nossa vida toda e da família, coloca tudo de pernas pro ar.

Acredito que ir ou permanecer é amar, amamos o quanto podemos, e da forma que podemos. E isso requer uma escolha. Sem escolha não há liberdade.

Se escolhemos ir é uma forma de amar a nós mesmos e ao outro, pois ficar sem disponibilidade de mudar é uma prisão de inocentes. Ir demanda coragem e é um processo que não se desenha da noite pro dia.

Ficar é uma forma de reconhecer a nós mesmos no outro, e isso também é amor. Também é necessária muita coragem e decisão firme para olhar para o outro como uma oportunidade de mudança, para resgatar e refazer uma relação pós filhos. Mas eu tenho conseguido diariamente, e digo que é possível sim, mesmo que em alguns dias eu não consiga, lembro da minha decisão de escolher ficar, e sigo. Pra mim tem sido uma experiência desafiadora e gratificante, que tem valido muito a pena!


Ancestralidade: Gerações anteriores – percepções e empatia

 

Autoconhecimento e a procura por culpados

Falar sobre gerações anteriores à minha me pareceu um pouco ousado a princípio, pois como falar daquilo que não vivi sem ser arrogante e sem julgamentos. Porém falo das percepções que precisei elaborar dentro de mim mesma para poder entender minha própria vida e história, a forma como fui criada, a forma como meu companheiro foi criado, e o quanto isso impacta na nossa relação e na criação da nossa filha.

Quando comecei a trilhar o caminho do autoconhecimento e remexer nas feridas infantis, a entender como cenas do meu passado haviam me impactado e como elas foram determinantes em alguns comportamentos “negativos” que eu apresentava, como outras tantas experiências da minha primeira infância ajudaram a formar minha personalidade e os aspectos destrutivos dela, a primeira reação foi me colocar num lugar de vítima e de muita raiva.

Quando eu fui entendendo que algumas das fortes emoções “negativas” e medos que a maternidade trouxe à tona vinham dores da minha criança interior ferida desencadeadas por choros contidos, frustrações não validadas, falas marcantes dos meus cuidadores, falta de acolhimento nos momentos de medo e solidão segundo as minhas expectativas, baixa autoestima na infância e adolescência, foi impossível não julgar meus pais, alguns professores e outras figuras que fizeram parte desse período da minha vida.

Já os culpei por tudo de ruim que estava me acontecendo naquela fase,  por não terem “me dado aquilo que eu precisava”, posteriormente me culpei por tê-los julgado,  por sentir raiva, por sentir pena, por me sentir melhor, e hoje, entendo que o julgamento é natural quando entendemos todo o mecanismo de formação da personalidade e como nossa psique é moldada e impactada pela forma como fomos criados.

Entendi que a culpa, essa estrutura que a meu ver tem um papel importante inicialmente, não podemos negá-la pois ela também faz parte do processo, o que não podemos é nos fixar nela. Porém tanto culpar nossos pais, como posteriormente nos culparmos por culpá-los é instintivo. Isso aconteceu comigo, porém eu percebo que quanto mais consciência fui tomando dos meus processos, mais fui entendendo que nem meus pais nem ninguém tinham culpa de nada, mas inconscientemente eu transferia essa culpa para mim mesma.

Hoje vejo essa culpa ao mesmo tempo como uma defesa e uma resistência à mudança, porque mudar dói. E tudo bem culpar e sentir culpa, se você estiver nessa fase do caminho, prossiga, ela pertence e te garanto que vai passar. Não reprimindo a culpa, podemos transpô-la com consciência.

Como as minhas emoções reprimidas da infância refletiam nos meus incômodos emocionais com minha filha

Nas minhas buscas terapêuticas, descobri, por exemplo, que o choro da minha filha me incomodava por causa do choro e raiva reprimidos na minha infância, não só porque meus pais podem ter “calado” meu choro e explosões de raiva algumas vezes, usando falas pré-estabelecidas que a sociedade da época consideravam certas, e ainda hoje muitas pessoas consideram apesar de todas as pesquisas científicas que já provaram o contrário. Não sou melhor do que ninguém e nem estou isenta, também carreguei essas crenças e falas comigo, e já usei com minha filha, falas como: “engole o choro”, “isso não é choro, é manha”, “vou te dar motivo pra chorar”, “chorar é feio”, “não pode ter raiva da mamãe-papai”, “Papai do céu não gosta de criança que chora”, “ninguém gosta de criança que chora”, “sentir raiva dos pais é pecado”, e por aí vai.

Atualmente, é fácil acessar informações científicas e entender no nível consciente e mental que deixar a criança chorar e se deixar levar pela energia da raiva faz bem pra ela, ajuda a limpar o “lixo emocional”, e é o ideal para ela crescer mais conectada com os próprios sentimentos e desenvolver inteligência emocional. Que acolher o choro da criança refletirá na sua saúde emocional quando ela for adulta, a fará entender que o sofrimento e a frustração fazem parte da vida, mas que ela nunca precisará sofrer sozinha pois pode contar com o apoio dos pais, da família, redes de apoio, criando assim resiliência ao sofrimento. Que deixar uma criança colocar toda sua raiva pra fora e ir ajudando ela a se acalmar, a ensina sobre autorregulação e autocontrole. Até aí, ok!

Mas se tem algo que demorei pra entender é que quando a criança tem uma explosão emocional de qualquer nível, nos fazendo acessar nossas próprias emoções feridas, não há conceito teórico científico que possa ser aplicado se o nosso emocional estiver abalado. Não há ferramenta de disciplina positiva que funcione se a criança estiver nos espelhando em nossos próprios conflitos emocionais e não nos dermos conta, a única ferramenta que resolverá será analisar e sanar a origem do conflito em nós para limpar do nosso campo o que é nosso, e podermos olhar genuinamente pra emoção da criança no momento presente e acolhê-la.

Para mim está provado, por minha experiência, que uma coisa está intimamente ligada a outra, pois quando o comportamento desafiador da minha filha traz sensações em mim como raiva, revolta, medo, dor, sei que não sinto tudo isso por causa do comportamento em si, mas sim em razão de emoções minhas que aquele comportamento dela desperta em mim, trazendo algo meu, e não dela. Quando ela tem um momento de explosão, e eu não consigo encarar sem levar pro lado pessoal, sem pensar coisas como “eu não aguento isso”, “ela quer me enlouquecer”, “chora por nada, ou chora por tudo”, (eu já pensei todas elas e às vezes ainda penso), quando levo pra esse lado, sei que ali alguma ferida minha foi acessada e geralmente as falas usamos são as mesmas que usaram conosco na infância.

Conforme fui olhando pra esses sentimentos que eram despertados, e de certa forma fui integrando-os à medida que me policiava e me acolhia quando esses sentimentos vinham, os mesmos comportamentos de antes não incomodavam mais, eram apenas algo que eu lidava com tranquilidade. Devagar, quando ela chora, e eu estou bem comigo mesma, eu trago pra mente que ela é apenas uma criança, e que o choro é uma expressão emocional que a ajuda a se sentir melhor quando passa, e que aquilo não é pessoal. Não sou técnica no assunto, nem quero provar nada, pois esse trabalho já tem sido feito pelos especialistas da área, mas toda essa dinâmica eu aprendi nos meus estudos pessoais e terapias, pode ser explicada com uma pesquisa específica na internet e em muitos livros. Eu mesma, leio muitos livros sobre maternidade, autoconhecimento, relações humanas, psicologia do desenvolvimento, primeira infância.

Minhas percepções sobre a visão de criação da minha época de criança

Quando eu era criança, vejo que muitas vezes o choro era encarado como sinônimo de vulnerabilidade, “manha”, fraqueza, falta de controle sobre a criança, falta de “pulso firme”. Portanto, os pais que não educavam seus filhos seguindo esse princípio, eram considerados como fracos, “maus pais”. Ao pedir para pararmos de chorar, nossos pais acreditavam estar nos dando a melhor educação, e assim também foi com eles quando eram crianças, e assim sucessivamente. Se voltarmos um pouco no tempo, teremos acesso à informações que desconsideravam totalmente a infância e o querer da criança praticamente não existia.

O que pra mim foi inicialmente visto como falta de empatia pelo meu choro na infância, com o tempo pude compreender que meus pais estavam tentando me dar o melhor. O choro foi o exemplo que quis trazer pois foi e ainda é algo que “pega” muito pra mim no meu maternar, que já pude melhorar bastante, hoje consigo acolher mais a minha filha nesses momentos de choro e raiva, geralmente com mais eficácia quando estou mais tranquila e mais nutrida emocionalmente.

Mas quando estou vivendo minhas próprias crises, tendo meus picos emocionais, como no período pré menstrual que fico mais sensível, haja paciência e empatia pra acolher o choro, a vontade é de calar e não acolher, sou sincera em dizer que em muitos momentos desses toda teoria vai pro brejo. Nem sempre estaremos bem para não misturar as coisas e levar pro lado pessoal, é um trabalho de formiguinha, dia a dia. Um dia será melhor, o outro menos, e assim caminhamos comemorando as pequenas vitórias e driblando a culpa que possa surgir nos momentos difíceis. Até porque a busca não é pela perfeição, acredito que mostrar uma falsa perfeição para nossos filhos fará com que eles cobrem de si mesmos a mesma perfeição e sofrerão por nunca alcançá-la, pois nunca seremos perfeitos nessa vida.

Por isso que acho que mesmo com toda informação que temos, não vamos acertar sempre, e ainda assim, não somos melhores que nossos pais, pois a informação não basta, a informação sem o autoconhecimento e a nossa reeducação é ineficaz e ilusória. Não há educação sem autoeducação. Claro que muitos adultos viveram em famílias disfuncionais, e talvez não concordem com o que estou trazendo, pois sei que tive o privilégio de ter uma família estruturada e amorosa.

Vejo que meus pais fizeram o que eles podiam com a consciência que tinham e repetindo a criação que tiveram, que hoje não me permito usar adjetivo nenhum para qualquer que seja o tipo de criação em questão. Acho que tudo precisa evoluir, e se está evoluindo está tudo certo. Não tem nada de errado, nem antes nem agora. Eles nos deram o que receberam. Fizeram o melhor que puderam, e por mais difícil que seja, pois sei que fácil não é, além de qualquer falta que tivemos, eles nos deram o dom maior da vida, que vinda deles e com as informações e apoio profissional que temos hoje podemos fazer melhor da vida que recebemos deles.

A família que estamos é a que escolhemos

Acredito que mesmo nas famílias desestruturadas tudo se trata de uma grande repetição onde ninguém é culpado e ninguém é vítima, todos escolhemos a família que precisávamos, para um propósito maior. Acreditar nisso me trouxe paz. Não quero impor minhas crenças neste texto, só acho que precisamos encontrar uma crença que nos faça sentir paz, se nosso coração sente que aquilo é verdade, e se acalma naquela crença, com certeza pra ele é verdade, e isso que importa.

A verdade é que cada pessoa lida como pode com suas feridas e traumas, inconsciente ou conscientemente dá apenas o que recebeu na criação dos seus filhos, essa máxima vale para as gerações anteriores também.

Nesse momento gostaria de direcionar esse olhar empático para geração dos meus pais, que é a geração que diante de tantas informações e estudos novos sobre criação de filhos, por muitas vezes se sente incompreendida, não validada, que quando veem como hoje aderimos a tantas mudanças, informações diferentes e novas na forma de criar e educar nossos filhos, se sentem até mesmo ofendida, podendo sentir que se concordarem com tudo isso que estamos optando estariam assumindo o próprio fracasso.

Não há certo ou errado, há evolução. Há informações que podem colaborar com maior saúde física e emocional para as próximas gerações, mudanças alimentares, mudanças de atitude. Mas ainda assim, cada um só consegue aplicar aquilo que sua estrutura emocional permite, e tudo bem! Como disse antes, temos que evoluir, rápido ou devagar, aos poucos e a vida toda, pela nossa própria cura, e pela cura dos ancestrais e descendentes, pois com certeza nossa cura é a deles.

As facilidades da atualidade na criação de filhos

A minha mãe não teve carreira, nunca foi assalariada, criou cinco filhos de idades próximas com marido trabalhando em outra cidade em alguns momentos, com rede de apoio familiar limitada a como podiam ajudar. Com tanta demanda física, emocional, doméstica, dificuldades financeiras, fez o melhor que pôde com a estrutura que tinha, e hoje tenho consciência que me deu exatamente o que eu precisava pra ser quem sou, tive as experiências que definiram meus valores e aprendizados atuais e me fizeram ser quem eu sou.

Quando era cultural ter vários filhos, hoje eu com apenas uma filha tive tantas questões emocionais que muitas vezes me colocaram em desespero e pânico, imagino ela com cinco e tendo que lidar com tudo ao mesmo tempo… Eu tive ajuda profissional para lidar com minhas questões, ela não teve. Hoje é tão fácil ter acesso a terapias on line e presenciais com valores acessíveis, ainda bem que existem muitos profissionais disponíveis no mercado, e hoje existem terapias excelentes específicas para mães com rede de apoio, como o Zum Zum de Mães, que expandiu minha mente, me ajuda e ajudou demais.

Por tantas vezes me senti impotente diante de todas as coisas que tenho que lidar fora à maternidade, estar disponível emocionalmente e ainda assim ter que trabalhar fora, cuidar da casa, das roupas, proporcionar uma alimentação balanceada pra minha família, por tantas vezes tenho a sensação de estar caindo num poço sem fundo… Mais uma vez, imagino como foi pra minha mãe com cinco filhos e mesmo não trabalhando fora, como ela deve ter se sentido impotente em tantos momentos, achando que ia enlouquecer com tantas responsabilidades, e isso me faz sentir empatia pelos momentos em que ela explodiu comigo e meus irmãos, e mais do que isso, empatia genuína por ela.

Só pude entender e ter mais empatia pela minha mãe quando me tornei mãe. Antes, por melhor filha que eu fosse eu não poderia ter entendido tudo que a maternidade traz para nossa vida, sem sermos avisados, levando nossa identidade e o que entendíamos como vida antes dela, muitas vezes adiando nossos sonhos, projetos, desejos, nossa própria liberdade. Vejo que muitas mulheres passam a vida tentando resgatar quem eram e não conseguem, e para as gerações anteriores era mais difícil ainda por tantas questões sociais ligados ao patriarcado, a falta de liberdade financeira, a falta de voz e olhar sobre essas questões.

Gratidão às gerações que abriram caminhos

Se hoje é mais fácil pra nós, é porque as gerações que nos antecederam abriram os caminhos e doaram suas vidas para que fosse mais fácil para nós, tanto para vivermos quanto para criarmos nossos filhos nesse momento que estamos. Eles sacrificaram sua liberdade para nos dar a liberdade que temos hoje. Somos privilegiados.

Volto a falar, quem viveu em famílias disfuncionais talvez discorde do que trago aqui, mas o dom maior eles nos deram: a vida!!!

Chega de julgamentos e comparações pelas diferenças de antes e agora, antes havia uma informação, hoje há outras mais embasadas cientificamente, mas não por isso melhores ou piores, apenas encaro pelo lado de que junto com a humanidade, os conhecimentos evoluíram e mesmo que os conhecimentos sejam bons, se nos colocamos num lugar de saber mais que nossos ancestrais, seremos arrogantes e não gratos ao que foi da forma que foi, e isso gera sofrimento. Aceitar tudo como foi nos traz paz!!!! Mas não é de repente que conseguimos, é um longo e doloroso processo que requer muita coragem, mas que precisa começar em algum momento.

Da mesma forma que chamo a atenção para nossa geração ter mais empatia pelas anteriores, também apelo que essas gerações que vieram antes tenham empatia por nós, pois quando optamos em fazer diferente baseados em estudos e informações que hoje temos acesso, não o fazemos para descreditar tudo que vocês fizeram de diferente de nós e muito menos para ofendê-los, o fazemos pensando em fazer o melhor para nossos filhos, assim como vocês também fizeram tudo que puderam para dar o melhor que puderam para nós.

Persistir nessas discussões é uma luta sem vencedores, eu honro tudo aquilo que recebi da forma que foi, e agradeço a todos meus ancestrais por absolutamente tudo. Peço a benção deles para que eu possa agir diferente deles na minha forma de maternar e de viver a minha vida com mais consciência e leveza. Que assim seja!


Vamos falar de puerpério de tristeza

Eu engravidei pela segunda vez em 2020, e eu soube que eu estava grávida, no dia que as orientações sobre a pandemia começaram a chegar, com...