Eu engravidei pela segunda vez em 2020, e eu soube que eu estava grávida, no dia que as orientações sobre a pandemia começaram a chegar, com a vontade louca de comer bolacha de maisena torradinha com café com leite. Naquele dia, eu soube.
Naquele dia, eu me alegrei. Foi doce a percepção de que realmente tinha um bebêzinho crescendo dentro de mim, um bebê sonhado e desejado, planejado para aquela época mesmo, quando a Olívia estava com quase cinco.
Claro, hoje, 4 anos depois, ninguém imaginaria o que se desdobraria com a pandemia da covid-19. O lockdown, as máscaras, não poder abraçar, gestante ser grupo de risco, as mortes, os amigos que perderíamos, a demora para a chegada das vacinas, o governo negacionista.
O medo de contrair a doença me acompanhou durante toda a gestação, e eu vim carregando uma tristeza que acredito que era geral, por estarmos vivendo tudo que vivemos, sem poder fazer nada. Misturada a essa tristeza, tinha a alegria de estar gestando pela segunda vez minha segunda menininha.
Planejar o parto dos meus sonhos, curativo, libertador, que para mim seria uma ressignificação do meu próprio nascimento, em meio ao caos das folhas de ponto que tive que lançar da minha casa, com a lombar doendo, e a Olívia trancafiada querendo atenção, foi bem mais estressante do que eu imaginei. Me entristecia que tinha que ser assim.
Mas a magia da vida em sua alquimia sempre faz com que as coisas sejam como tem que ser, e eu poder estar em casa para ficar com a Olívia devido as escolas trancadas, foi uma grata coincidência. Não pegar covid quando eu estava grávida, também.
Apesar de tudo, eu consegui ter o meu parto domiciliar tão desejado, e isso foi a maior benção de todas que já recebi na vida. O quanto sou grata a Deus por isso, é inexorável o bastante para caber em palavras. O quanto sou grata a sabedoria do feminino, que permitiu que mulheres gestassem e parissem de forma natural, é inexplicável.
Porém, aprendi que mesmo quando quando estamos vivendo o momento mais grandioso das nossas vidas, experimentamos emoções diversas, porque somos humanas, e diversas, e intensas, e experimentei pels primeira vez que no mesmo instante cabem felicidade e tristeza, e uma emoção não anula a outra.
Foi nesse contexto, que a Memê chegou numa manhã de terça-feira, às 11:44. E mesmo estando feliz demais, me sentindo privilegiada por tudo que vivenciei com essa chegada, a tristeza que eu sentia continuava a me fazer companhia em todos os momentos.
Assim que eu descobri também, que a mesma lágrima de tristeza pode coexistir com a de alegria, e foi muito confuso esse turbilhão de sensações. Muito intenso.
Eu não deveria estar triste, eu dizia isso para mim mesma, mas depois de viver vários mergulhos de autoconhecimento, eu sabia que essa tristeza pedia passagem, e por isso que eu me permiti sentí-la, em toda sua intensidade e verdade.
Foram mais de dois anos após o parto, me sentindo triste, exatamente o tempo do meu puerpério, andando num ritmo lento, com o pensamento divagando, o olhar parado no horizonte, e a vontade de me encolher bem pequenininha pra caber dentro de uma casca de noz. Vontade de me recolher, de ficar quietinha, de rezar, de chorar (chorei muito nesse tempo todo).
Eu não entendia aquele sentimento, mas eu acolhia. Eu dizia para as amigas mais íntimas, que eu ainda não estava entendendo o porquê ou o pra quê daquela tristeza, mas que ela não cessava. Que era do puerpério.
Chamei a minha tristeza pra conversar muitas vezes. Tomamos vários cafés juntas, e algumas taças de vinho. Tinha dias que ela apertava o meu peito com tanta força, que doía cada pedaço do meu corpo, mas a dor era uma dor não só física, doía na alma.
Não tinha nada a ver com nada nem ninguém, mas eu não queria nada e nem ninguém muito perto de mim. Eu queria ficar sozinha. E quando apertava demais, eu tinha muita vontade de fumar. Era louco como o aperto no peito saía com o cigarro, também era algo oral que me afetava.
No meu íntimo, eu implorava pra Deus, que me ajudasse a sair daquele estado. Que levasse embora a tristeza. Eu sentia que estava num deserto, árido, isolado, em câmera lenta.
Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que eu precisava passar por aquele deserto, que ninguém passaria por mim, que naquele deserto tinha tesouros escondidos, e que eu devia seguir em frente. Em frente. Enfrente. Eu tinha que enfrentar o que estava acontecendo comigo, as sucessivas ocasiões que me colocavam diante de problemas para resolver, e a todo momento eu só queria que tudo parasse.
Mas a gente não escolhe quando termina nosso deserto. Ele nos escolhe, e nos mantém nele até que estejamos fortes o suficiente para sair de lá. A gente olha em frente, e não tem nada palpável, mas o deserto é sábio, e nos faz sair dele muito melhores do que entramos.
O deserto da alma é solitário. Nada que do que te digam te tira de lá. É incrível a potência com que ele nos arrebata, nos sacode, nos subjuga, nos fere, nos derruba e nos levanta.
Foi assim que eu, enfim, ENTENDI!
Depois de tomar paulada da vida, de ter todos os ossos do corpo sacudidos, que eu entendi.
Se eu não cuidasse de mim, ninguém ía. Se eu não me valorizasse, ninguém ía. Se eu não me amasse, ninguém ía fazer isso por mim.
Aí um dia, assistindo um documentário sobre a vida do Paulo Gustavo, meu comediante favorito, que foi mais uma vítima da pandemia, Deus falou comigo.
A Monica Martelli falava dele, e ela disse uma coisa, que me tocou profundamente: ela disse o quanto ele amava a vida, o quanto ele amava viver.
Ali, naquele momento, passou um filme na minha cabeça - eu nunca tinha amado a minha vida, eu nem sabia o que era isso! Sim, eu nunca tinha amado estar viva, eu nunca tinha pensado sobre isso. E, naquele momento, Deus me mostrou, através da história de vida de um homem que eu admiro profundamente, que é o Paulo Gustavo, que a minha virada de chave seria acolher minha tristeza, mas que eu só a transcenderia quando eu resolvesse amar a minha vida, quando eu decidisse ser feliz.
Nesse dia, começou o processo de mudança, a saída do deserto, e sobretudo, o entendimento do porquê tanta tristeza.
Toda aquele tristeza, queria despertar em mim a indignação diante da infelicidade. Ela me levou até o limite de mim mesma, me venceu pelo cansaço, e quando eu fiquei indignada o suficiente, eu saí dela.
Meus olhos estavam atentos, e os ouvidos afinados, e eu entendi o quê toda essa triteza queria me ensinar. Claro, que era sobre felicidade, e eu fui tao burra que demorei mais de dois anos pra entender. Mas o fato é que o tempo no deserto é cronometrado de forma diferente, e parecia que ele tinha parado ali. Eu tinha a sensação de andar, sem sair do lugar. E isso eu também entendo hoje que era mais uma característica do meu puerpério.
Dois anos. A vida toda da minha Memê. Que veio sacudindo todas as minhas certezas, chegou no momento mais difícil da história, pra me mostrar que dá pra ser feliz, que eu mereço ser feliz, que a vida é uma dádiva, e que eu posso amar a minha vida, que eu devo amar a minha vida. Que a vida foi feita para ser amada.
Foi graças a tudo que passei desde quando descobri que estava grávida dela, graças a tudo que uma gestação, um parto, um puerpério de muita tristeza, que eu olhei, com olhos simples e singelos, para a felicidade que é minha por direito, mas que nunca reinvindiquei.
Filhos são oportunidades da vida de nos dar mais vida. Puerpérios são trechos difíceis de atravessar, mas que trazem algo extraordinário, se estivermos atentas. E, pra finalizar, faço menção à letra de uma música que me foi minha amiga durante todo meu puerpério, "De cada vez", da Sandy e da Agnes:
"Lembrar de uma tristeza,
te faz saber o quanto é lindo ser feliz!"




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